
François-Marie Arouet (1694-1778), que adotaria o nome de Voltaire, foi a figura mais célebre e combativa do Iluminismo francês. Espirituoso e provocador, foi preso na Bastilha e exilou-se na Inglaterra (1726-1728), onde admirou a liberdade política, o empirismo de Locke e a ciência de Newton — experiência que relataria nas Cartas Filosóficas. Frequentou a corte de Frederico, o Grande, da Prússia, e instalou-se por fim em Ferney, perto da fronteira suíça, de onde dirigiu campanhas públicas contra a injustiça. Escritor prolífico, deixou peças, poemas, obras históricas, contos filosóficos e um vasto Dicionário Filosófico.
Sua bandeira foi o combate ao fanatismo e à intolerância religiosa, sintetizado no grito “Écrasez l’infâme!” (“Esmagai a infâmia!”). Em matéria de religião, Voltaire era deísta: admitia um Deus criador, ordenador do universo como um relojoeiro, mas rejeitava dogmas, milagres e a autoridade da Igreja. Sua defesa da tolerância não foi apenas teórica: após a execução injusta do protestante Jean Calas, escreveu o Tratado sobre a Tolerância (1763), um marco na luta pelos direitos individuais.
Sua obra mais lida, Cândido (1759), é uma sátira mordaz ao otimismo de Leibniz — caricaturado na figura do mestre Pangloss e sua fórmula “tudo vai bem no melhor dos mundos possíveis”. Diante de terremotos, guerras e crueldades, Voltaire opõe a esse otimismo abstrato uma sabedoria prática e modesta: “il faut cultiver notre jardin” (“é preciso cultivar nosso jardim”). Diferentemente de Rousseau, confiava mais nas reformas graduais e nos “déspotas esclarecidos” do que na revolução. Tornou-se símbolo maior do laicismo e da liberdade de pensamento modernos.
Conceitos-chave
- Crítica ao fanatismo e à superstição: a Igreja e a religião institucional são responsáveis pela maior parte da violência e injustiça da história — “Esmagai o infame!” (Écrasez l’infâme!)
- Deísmo: aceita um Deus relojoeiro que criou o universo, mas rejeita dogmas, milagres e revelação; a religião natural é preferível à religião revelada
- Tolerância: Tratado sobre a Tolerância (1763) — escrito após o caso Jean Calas (protestante executado injustamente); a tolerância é um imperativo racional e humanitário
- Cândido (1759): sátira ao otimismo leibniziano de Pangloss (“tudo vai bem no melhor dos mundos possíveis”) — o mundo está repleto de mal, injustiça e absurdo; a resposta é a ação prática: “il faut cultiver notre jardin”
- Reforma pelo esclarecimento: acreditava que reis ilustrados e reformas graduais eram o caminho — não a revolução popular (diferente de Rousseau)
Influenciado por
- Locke — liberdade civil e tolerância religiosa
- Newton — razão científica e ordem natural
- Pierre Bayle — ceticismo e crítica da tradição
Influenciou
- Enciclopedistas (Diderot, D’Alembert)
- Iluminismo europeu e americano
- Laicismo e secularismo modernos
- Rousseau (relação ambígua — disputas filosóficas)
Obras
Cartas Filosóficas (1734); Dicionário Filosófico (1764); Cândido (1759); Tratado sobre a Tolerância (1763); O Século de Luís XIV (1751).
Ver também
Contratualismo, Iluminismo e Kant
Livros indicados:
Uma história da filosofia - Vol. III - do Iluminismo francês a Nietzsche
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