
Vilém Flusser nasceu em Praga, então Tchecoslováquia, em 12 de maio de 1920, e morreu em 27 de novembro de 1991, num acidente de automóvel perto da fronteira entre a República Tcheca e a Alemanha, quando viajava para uma conferência em Praga. De família judaica, iniciou os estudos em Praga em 1938; com a ocupação nazista, deixou a cidade em 1939 para Londres e, em 1940, emigrou para o Brasil, onde se tornou cidadão brasileiro. Parte significativa de sua família foi vitimada pela perseguição nazista, experiência que marcou sua reflexão sobre exílio, língua e pertencimento.
Trajetória
Viveu no Brasil, sobretudo em São Paulo e no Rio de Janeiro, de 1940 a 1972, atuando como ensaísta, conferencista e professor. Nesse período formou-se intelectualmente em diálogo estreito com Vicente Ferreira da Silva, seu principal interlocutor, sobre cuja obra escreveu diversos ensaios e cuja ontologia influenciou sua visão da realidade. Publicou Língua e Realidade (1963), obra de filosofia da linguagem em que sustenta que a realidade se constitui nas línguas que a articulam, e outros textos em português. Em 1972 deixou o Brasil; viveu temporariamente em Merano (Tirol do Sul) e, em 1981, fixou-se em Robion, no sul da França. Escreveu em português, alemão, inglês e francês, e seu arquivo é hoje objeto de estudos internacionais.
Conceitos-chave
- Aparelho e programa — em Filosofia da Caixa Preta (Für eine Philosophie der Fotografie, 1983), Flusser analisa a câmera fotográfica como paradigma de aparelho: um instrumento que realiza um programa previsto por seus construtores. O fotógrafo parece livre, mas opera dentro das possibilidades que o aparelho oferece.
- Funcionário — o ser humano que opera o aparelho sem dominá-lo; a liberdade, para Flusser, consiste em jogar contra o programa do aparelho, produzindo informação não prevista por ele.
- Imagem técnica — imagem produzida por aparelhos, a partir de textos científicos, que Flusser distingue das imagens tradicionais e que, segundo ele, inaugura uma nova etapa da cultura após a escrita linear (tema de Ins Universum der technischen Bilder, 1985).
- Pós-história — o diagnóstico, desenvolvido em Pós-história (1983), de que a cultura contemporânea estaria saindo do pensamento linear e histórico, organizado pela escrita, para formas de consciência estruturadas por imagens técnicas e códigos.
- Comunicologia — o projeto de uma teoria geral da comunicação como estudo das formas pelas quais os seres humanos produzem sentido; reunido em Kommunikologie, de publicação póstuma.
- Ficção filosófica — em Vampyroteuthis infernalis (1987, com o artista Louis Bec), emprega a imagem do molusco abissal como espelho especulativo do humano.
Influenciado por
- Vicente Ferreira da Silva, interlocutor central de sua fase brasileira
- Martin Heidegger e a tradição fenomenológica
- Reflexão sobre linguagem e realidade em diálogo com a filosofia da linguagem do século XX
Influenciou
- Os estudos de mídia e a filosofia da tecnologia, em especial os debates sobre fotografia, imagem técnica e cultura digital
- A teoria da comunicação e as pesquisas em artes e design na Europa e na América Latina
- O Arquivo Vilém Flusser, em Berlim, e a recepção acadêmica contínua de sua obra
Obras
Língua e Realidade (1963); Pós-história (1983); Für eine Philosophie der Fotografie (1983; Filosofia da Caixa Preta; trad. inglesa Towards a Philosophy of Photography); Ins Universum der technischen Bilder (1985); Vampyroteuthis infernalis (1987, com Louis Bec); Writings (2002, seleção em inglês); Communicology (2023, edição em inglês).
Ver também
Vicente Ferreira da Silva, Martin Heidegger, Jacques Ellul, Walter Benjamin