
Vicente Ferreira da Silva nasceu em São Paulo em 10 de janeiro de 1916 e morreu na mesma cidade em 19 de julho de 1963, aos 47 anos, num acidente de automóvel. Formou-se em direito na Faculdade do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo, mas nunca exerceu a advocacia, dedicando-se por inteiro à filosofia. Embora sua vida acadêmica formal tenha sido discreta, atuou como organizador cultural e foi um dos filósofos brasileiros mais originais de meados do século XX.
Trajetória
Sua primeira fase foi dedicada à lógica: Lógica Moderna (1939) e Elementos de Lógica Matemática (1940) são obras de introdução à lógica moderna e matemática. A partir dos anos 1940 voltou-se à filosofia da existência e, progressivamente, à ontologia de inspiração heideggeriana, com Ensaios Filosóficos (1948), Exegese da Ação (1949) e Dialética das Consciências (1950). Na década de 1950, sua reflexão passou a se concentrar na mitologia, no sagrado e na crítica ao humanismo antropocêntrico, em obras como Ideias para um Novo Conceito de Homem (1951) e Teologia e Anti-Humanismo (1953).
No plano institucional, fundou em São Paulo o Colégio Livre de Estudos Superiores (1945), onde ofereceu cursos livres; colaborou com Miguel Reale na criação do Instituto Brasileiro de Filosofia (1949); e foi cofundador, em 1955, da revista Diálogo, ao lado de Dora Ferreira da Silva e Milton Vargas, uma das publicações culturais mais estimulantes do período.
Conceitos-chave
- Inversão da relação entre mito e logos — em vez de ver o mito como estágio primitivo superado pela razão, Vicente Ferreira da Silva concebe a filosofia como desdobramento do pensamento mítico, que permanece como fundo originário da experiência humana.
- Crítica do humanismo antropocêntrico — em Teologia e Anti-Humanismo, contesta a centralidade do sujeito humano moderno e propõe pensar o humano a partir de uma abertura ao sagrado e ao divino.
- Ontologia do sagrado e finitude — a fase tardia de sua obra reflete sobre o ser, o sagrado, a finitude e a transcendência, em diálogo com a poesia como fundamento do sentido histórico.
- Pensamento poético — arte e poesia são tratadas como instâncias de fundação do mundo histórico, e não como adorno cultural.
Influenciado por
- Martin Heidegger — a influência mais importante, em especial a ontologia fundamental e a meditação sobre o ser
- Schelling e a filosofia romântica da mitologia
- Jakob Böhme, Novalis e Hölderlin
- Nietzsche
- Louis Lavelle
- T. S. Eliot
Influenciou
- Vilém Flusser, seu principal interlocutor e amigo próximo, que o chamou de primeiro filósofo brasileiro e escreveu ensaios sobre sua obra
- O círculo intelectual da revista Diálogo, que fundou em 1955 com Dora Ferreira da Silva e Milton Vargas
- A recepção posterior de Heidegger e da filosofia do mito no Brasil, retomada em edições de suas obras completas no início do século XXI
Obras
Lógica Moderna (1939); Elementos de Lógica Matemática (1940); Ensaios Filosóficos (1948); Exegese da Ação (1949); Dialética das Consciências (1950); Ideias para um Novo Conceito de Homem (1951); Teologia e Anti-Humanismo (1953).
Ver também
Vilém Flusser, Miguel Reale, Gerd Bornheim, Mário Ferreira dos Santos