
John Rogers Searle, nascido em Denver (Colorado) em 1932 e falecido em 2025, foi professor emérito da Universidade da Califórnia, Berkeley. Suas contribuições abrangem filosofia da linguagem (teoria dos atos de fala), filosofia da mente (o argumento do Quarto Chinês, naturalismo biológico) e ontologia social (a construção da realidade institucional). É um dos filósofos analíticos mais lidos e debatidos do séc. XX e início do XXI.
Conceitos-chave
Teoria dos Atos de Fala (Speech Acts, 1969): Desenvolvendo J.L. Austin, Searle sistematiza a teoria. Todo ato de fala envolve:
- Ato locucionário: proferir sons com sentido e referência
- Ato ilocucionário: o que se faz ao proferir (afirmar, prometer, ordenar, perguntar)
- Ato perlocucionário: o efeito causado no ouvinte Searle analisa as condições de êxito (felicity conditions) de diferentes atos ilocucionários e propõe uma taxonomia: assertivos, diretivos, compromissivos, expressivos, declarativos.
Intencionalidade (Intentionality, 1983): Os estados mentais têm intencionalidade — são acerca de algo (aboutness). Searle analisa a estrutura da intencionalidade: conteúdo intencional, condições de satisfação, direção de ajuste (mente-para-mundo em crenças; mundo-para-mente em desejos). Influência explícita de Husserl e Brentano, integrada no quadro analítico.
O Quarto Chinês (“Minds, Brains, and Programs”, Behavioral and Brain Sciences, 1980): Experimento de pensamento contra a Inteligência Artificial Forte (a tese de que um programa computacional adequado é uma mente). Imagine uma pessoa fechada num quarto que recebe perguntas em chinês e possui um manual de regras para produzir respostas corretas em chinês — sem entender nada do idioma. Para observadores externos, o quarto “entende chinês”. Mas sintaxe não é suficiente para semântica. Conclusão: nenhuma simulação computacional de processos mentais é genuína cognição, pois lhe falta intencionalidade real.
Naturalismo Biológico: A consciência e a intencionalidade são fenômenos biológicos — causados por processos neurais e realizados no cérebro. Não são redutíveis a padrões funcionais abstratos (contra o funcionalismo), mas tampouco são imateriais (contra o dualismo). A consciência é uma propriedade de nível superior do sistema nervoso, como a liquidez é uma propriedade de nível superior das moléculas de H₂O.
A Construção da Realidade Social (The Construction of Social Reality, 1995): Como objetos como dinheiro, casamentos, governos e fronteiras existem? Esses fatos institucionais dependem do reconhecimento coletivo de uma função de status: “X conta como Y no contexto C”. O dinheiro de papel é papel (X) que, num contexto social (C), conta como meio de troca (Y). Esta estrutura é recursiva e autoimposta, mas genuinamente objetiva dentro do quadro institucional.
Background: Condições de possibilidade não-intencionais da intencionalidade — capacidades, habilidades, hábitos e pressuposições que não são em si estados intencionais mas habilitam o funcionamento dos estados intencionais. Conceito que dialoga com Heidegger e Wittgenstein.
Influenciado por
- Wittgenstein — uso da linguagem, jogos de linguagem, Investigações Filosóficas
- J.L. Austin — teoria dos atos de fala (How to Do Things with Words)
- Husserl — intencionalidade, fenomenologia da consciência
- Franz Brentano — intencionalidade como marca do mental
Influenciou
- Teoria dos atos de fala (Kent Bach, Robert Harnish)
- Filosofia da mente: debates sobre IA, consciência e intencionalidade
- Ontologia social e teoria das instituições
- Linguística pragmática
Obras
Speech Acts (1969); Expression and Meaning (1979); Minds, Brains and Programs (artigo, 1980); Intentionality (1983); Minds, Brains and Science (1984); The Rediscovery of the Mind (1992); The Construction of Social Reality (1995); The Mystery of Consciousness (1997); Rationality in Action (2001); Freedom and Neurobiology (2007); Making the Social World (2010); Seeing Things as They Are (2015).
Ver também
Filosofia Analítica Filosofia da Mente
Livros indicados:
Speech Acts — John Searle
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The Construction of Social Reality — John Searle
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