
Nascido em Dança (Danzig) em 1788, em uma abastada família de comerciantes, Arthur Schopenhauer pôde dedicar-se à filosofia com independência financeira. Doutorou-se com Sobre a Quádrupla Raiz do Princípio de Razão Suficiente (1813) e publicou aos trinta anos sua obra capital, O Mundo como Vontade e Representação (1818) — que, no entanto, foi quase totalmente ignorada durante décadas. Hostil a Hegel, então dominante, chegou a marcar suas aulas no mesmo horário que as do rival, em Berlim, sem público. O reconhecimento só veio no fim da vida, nos anos 1850. Foi também o primeiro grande filósofo ocidental a incorporar seriamente o pensamento indiano (Upanixades e budismo).
Partindo de Kant, Schopenhauer sustenta que o mundo tem duas faces. Como representação, é fenômeno construído pelo sujeito — o “véu de Maya”, aparência. Mas a coisa-em-si, que Kant julgara incognoscível, pode ser pressentida a partir de dentro, em nosso próprio corpo: é a Vontade (Wille), um impulso cego, irracional e sem finalidade, que constitui a essência de tudo o que existe.
Dessa metafísica nasce seu célebre pessimismo. Porque a Vontade é desejo perpétuo e insaciável, a vida oscila entre o sofrimento da falta e o tédio da satisfação momentânea. Há, contudo, caminhos de alívio: a contemplação estética — sobretudo a música, expressão direta da Vontade —, que suspende temporariamente o querer; a compaixão (Mitleid), reconhecimento do sofrimento alheio como próprio e fundamento da moral; e, por fim, a ascese, a negação da própria vontade de viver. Sua influência foi imensa sobre Nietzsche (no início), sobre Wagner, sobre Freud e a psicanálise, e sobre Wittgenstein.
Conceitos-chave
- Mundo como representação: a realidade fenomênica é “véu de Maia” — construção do sujeito
- Mundo como Vontade: a coisa-em-si é a Vontade — irracional, cega, sempre insatisfeita
- Pessimismo: a vida é sofrimento — a Vontade nunca se satisfaz; satisfação → tédio → novo desejo
- Três caminhos de libertação:
- Arte: contemplação estética suspende temporariamente a Vontade
- Compaixão (Mitleid): sentir o sofrimento alheio como próprio — fundamento da moral
- Ascese: negação da Vontade de vida — caminho permanente; budismo/hinduísmo
- A música é a Vontade diretamente expressa (não representação)
Influenciado por
- Kant — coisa-em-si; formas a priori
- Filosofia indiana (Upanixades, budismo)
- Platão — as Formas na contemplação estética
Influenciou
- Nietzsche (início; depois ruptura radical)
- Wagner — estética
- Freud — pulsão de morte (Todestrieb)
- Wittgenstein — silêncio sobre o inefável
- Movimento de filosofia budista no Ocidente
Obras
O Mundo como Vontade e Representação (1818/1844, 2 vols.); Sobre o Fundamento da Moral (1840); Parerga e Paralipomena (1851).
Ver também
Filosofia do Século XIX
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