Saul Kripke
Saul Kripke

Saul Aaron Kripke foi provavelmente o filósofo analítico mais dotado tecnicamente de sua geração. Nascido em Omaha, Nebraska, revelou aptidão extraordinária desde a adolescência: publicou seu primeiro artigo lógico de maturidade — uma prova de completude para lógica modal — com dezoito anos, e correspondeu-se com profissionais de lógica enquanto ainda cursava o ensino médio. Professor em Princeton e depois no CUNY Graduate Center, Kripke transformou a metafísica, a filosofia da linguagem e a lógica modal de modo que praticamente toda filosofia analítica posterior ao debate em torno de Naming and Necessity é, em algum grau, uma resposta a ele.

Conceitos-chave

  • Semântica de Mundos Possíveis (Kripke Semantics): Entre 1959 e 1963, ainda estudante de graduação em Harvard, Kripke publicou uma série de artigos técnicos — incluindo “A Completeness Theorem in Modal Logic” (Journal of Symbolic Logic, 1959) — que estabeleceram a semântica de mundos possíveis para lógicas modais. Esta abordagem formal, na qual as verdades necessárias são verdades em todos os mundos possíveis e as contingentes são verdades em alguns mas não em todos, tornou-se o quadro padrão para a semântica modal.

  • Designadores Rígidos (Naming and Necessity, conferências de 1970 em Princeton; publicado na coletânea Semantics of Natural Language, 1972; versão em livro, Harvard University Press, 1980): Kripke distingue entre designadores rígidos — termos que designam o mesmo indivíduo em todos os mundos possíveis — e designadores acidentais (ou não-rígidos), que podem designar objetos distintos em mundos diferentes. Nomes próprios como “Aristóteles” ou “Humphrey” são designadores rígidos: em qualquer mundo possível em que discutimos Aristóteles, estamos falando daquele mesmo indivíduo, independentemente de quais propriedades ele teria nesse mundo.

  • Crítica ao Descritivismo (Teoria Causal/Histórica da Referência): A teoria dominante sobre nomes próprios, associada a Frege e Russell, sustentava que um nome significa um conjunto de descrições definidas — “Aristóteles” significaria algo como “o professor de Alexandre que escreveu a Metafísica”. Kripke refutou esta posição com vários argumentos: é possível que Aristóteles não tivesse nenhuma dessas propriedades (ele poderia ter morrido na infância) e, ainda assim, “Aristóteles” referiria a ele. Em seu lugar, Kripke propõe uma teoria causal-histórica: o nome é introduzido num “batismo inicial” (initial baptism), e a referência se transmite por uma cadeia histórica de usos, independente de qualquer conjunto fixo de descrições.

  • Necessidade a posteriori e Contingência a priori: Kripke desfez a identificação tradicional entre os pares necessário/contingente (categorias metafísicas) e a priori/a posteriori (categorias epistêmicas). Enunciados como “água é H₂O” ou “calor é movimento molecular” são necessários (não poderia haver água que não fosse H₂O), mas só sabemos disso a posteriori — pela descoberta científica. Por outro lado, “o metro padrão tem um metro de comprimento” é contingente (a barra de platina poderia ter outro comprimento) mas parece ser conhecido a priori por quem a definiu como padrão. Estas distinções abalaram profundamente a metafísica analítica.

  • Essencialismo: A teoria dos designadores rígidos leva naturalmente ao essencialismo: os objetos têm propriedades essenciais que os constituem em todos os mundos possíveis. Kripke argumenta que a origem de um objeto é essencial a ele — seria impossível que a rainha Elizabeth II tivesse nascido de pais diferentes, por exemplo. Da mesma forma, a composição química das espécies naturais (água, ouro) é essencial a elas.

  • “Kripkenstein” — Wittgenstein sobre Regras e Linguagem Privada (Wittgenstein on Rules and Private Language, 1982): Neste livro controverso, Kripke apresenta uma leitura célebre das Investigações Filosóficas de Wittgenstein. O “paradoxo cético” sobre seguir regras — como posso saber que ao adicionar novos pares ao conceito de adição estou seguindo a mesma regra que seguia antes? — levaria a uma forma de ceticismo sobre significado. A solução “cético-comunitária” de Kripke (atribuída a Wittgenstein, mas contestada por muitos comentadores) é que o significado é uma prática comunitária, não um fato individual. Independentemente de sua fidelidade a Wittgenstein, o argumento gerou enorme debate.

Influenciado por

  • Frege e Russell — lógica e teoria da referência (ponto de partida crítico)
  • Carnap — semântica modal formal
  • Wittgenstein — seguir regras, ceticismo semântico
  • Leibniz — mundos possíveis como instrumento conceptual

Influenciou

  • Hilary Putnam — externalismo semântico (Terra Gêmea; paralelo com designadores rígidos)
  • David Chalmers — semântica bidimensional e filosofia da mente
  • Timothy Williamson — modalidade e metafísica
  • Toda a metafísica analítica contemporânea
  • Filosofia da linguagem e teoria da referência

Obras

“A Completeness Theorem in Modal Logic” (Journal of Symbolic Logic, 1959); Naming and Necessity (1972/1980); Wittgenstein on Rules and Private Language (1982); Reference and Existence (conferências de 1973, publicadas em 2013).

Ver também

Filosofia Analítica Hilary Putnam David Chalmers

Livros indicados:

Capa do livro Naming and Necessity — Saul Kripke Naming and Necessity — Saul Kripke Ver na Amazon → Capa do livro Wittgenstein on Rules and Private Language — Saul Kripke Wittgenstein on Rules and Private Language — Saul Kripke Ver na Amazon →