
Nascido em 1872 numa influente família aristocrática britânica — era neto de um primeiro-ministro —, Bertrand Russell teve uma das trajetórias mais longas e variadas da filosofia: foi lógico, matemático, ensaísta, educador e ativista político, atravessando quase um século de história. Estudou em Cambridge, recebeu o Nobel de Literatura em 1950 e, fiel ao seu pacifismo, foi preso durante a Primeira Guerra e liderou, já nonagenário, a campanha contra as armas nucleares (Manifesto Russell-Einstein, 1955). É, com Frege e Wittgenstein, um dos fundadores da filosofia analítica.
No campo da lógica e da matemática, sua ambição foi o logicismo: mostrar, nos monumentais Principia Mathematica (escritos com Whitehead), que toda a matemática pode ser derivada de princípios puramente lógicos. Foi também ele quem descobriu o célebre paradoxo de Russell — sobre “o conjunto de todos os conjuntos que não pertencem a si mesmos” —, que abalou os fundamentos propostos por Frege e exigiu uma reconstrução da teoria dos conjuntos.
Sua contribuição mais influente para a filosofia da linguagem é a teoria das descrições definidas (1905): analisando frases como “o atual rei da França é calvo”, Russell mostrou que a forma gramatical de uma sentença pode esconder sua verdadeira estrutura lógica — e que muitos problemas filosóficos são, na verdade, confusões de linguagem a serem dissolvidas pela análise. Defensor de um empirismo rigoroso e de um ceticismo moderado, opôs-se ao idealismo e influenciou decisivamente Wittgenstein, o Círculo de Viena e toda a tradição analítica posterior.
Conceitos-chave
- Logicismo: a matemática pode ser completamente derivada da lógica pura — demonstrado (com Whitehead) nos Principia Mathematica
- Atomismo lógico: a realidade é composta de “fatos atômicos” independentes; proposições elementares correspondem a fatos simples; o mundo tem a mesma estrutura lógica da linguagem ideal
- Teoria das descrições definidas (1905): “O atual rei da França é calvo” — frases com descrições sobre entidades inexistentes não são nem verdadeiras nem falsas; a análise lógica dissolve pseudo-problemas
- Paradoxo de Russell: o conjunto de todos os conjuntos que não são membros de si mesmos — leva a contradição; abalou os fundamentos da matemática de Frege e motivou a teoria dos tipos
- Conhecimento por familiaridade vs. por descrição: conhecemos diretamente dados sensoriais e estados mentais; o resto conhecemos indiretamente por descrições
- Céticismo epistemológico moderado: defendeu que o conhecimento do mundo externo é inferência provável, não certeza; combateu o idealismo de Berkeley
- Filosofia pública: pacifismo na 1.ª Guerra Mundial (foi preso), oposição ao stalinismo, Manifesto Russell-Einstein (1955) contra armas nucleares
Influenciado por
- Frege — lógica de predicados (ponto de partida)
- Leibniz — lógica e otimismo racionalista
- Hume — empirismo e ceticismo
Influenciou
- Wittgenstein — discípulo direto em Cambridge; o Tractatus é resposta a Russell
- Círculo de Viena — positivismo lógico
- Filosofia analítica em geral (Quine, Strawson, Dummett)
- Lógica matemática contemporânea
Obras
Os Princípios da Matemática (1903); Sobre a Denotação (1905); Principia Mathematica (1910–13, com Whitehead); Os Problemas da Filosofia (1912); Nossa Ideia do Mundo Externo (1914); História da Filosofia Ocidental (1945).
Ver também
Filosofia do Século XX
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