Richard Rorty
Richard Rorty

Richard McKay Rorty foi um filósofo americano que lecionou em Princeton, na Universidade da Virgínia e em Stanford. Começou como filósofo analítico formado na tradição Wittgenstein-Sellars, mas Philosophy and the Mirror of Nature (1979) o projetou como um dos críticos mais radicais da tradição epistemológica ocidental. Rorty é o principal representante do neopragmatismo, que combina a herança pragmatista americana (Dewey, James) com elementos da filosofia continental (Heidegger, Derrida) e da filosofia analítica tardia (Wittgenstein, Quine, Sellars).

Conceitos-chave

  • Crítica à Epistemologia (Philosophy and the Mirror of Nature, 1979): Rorty argumenta que toda a tradição epistemológica ocidental — de Descartes a Kant até o positivismo lógico — repousa sobre a metáfora da mente como “espelho da natureza”: a mente como superfície que reflete o mundo. Esta metáfora é contingente, histórica, não-necessária. A “crise” da filosofia moderna resultou de tentar fundar o conhecimento em “representações privilegiadas” — intuições indubitáveis (Descartes) ou dados sensoriais (empirismo). Rorty propõe abandonar esta metáfora e toda a problematização que ela gera.

  • Filosofia Edificante vs. Sistemática: Em lugar da filosofia que busca fundamentos, Rorty propõe a filosofia edificante (edifying philosophy): conversação que abre possibilidades, desafia os pressupostos dominantes, amplia vocabulários. Heidegger, Wittgenstein e Dewey são “filósofos edificantes” que, cada um à sua maneira, dissolvem mais do que resolvem problemas filosóficos.

  • Neopragmatismo — Verdade e Justificação: A verdade não é uma propriedade de proposições que “correspondem” à realidade. Para Rorty, seguindo Dewey e James, verdade é o que é bom para nós acreditar, o que funciona, o que resiste à crítica. Não há um ponto de vista neutro (“perspectiva do Olho de Deus”) a partir do qual poderíamos comparar nossas crenças com a realidade nua. Só há crença e justificação dentro de práticas e vocabulários.

  • Vocabulários Contingentes (Contingency, Irony, and Solidarity, 1989): Tudo é contingente — nossa linguagem, nosso eu, nossa comunidade. Não há essências ou fundamentos necessários. O ironista liberal é aquele que: (a) tem dúvidas radicais sobre seu próprio vocabulário final; (b) reconhece que esses vocabulários não podem ser fundados em argumentos; (c) não acredita que seu vocabulário esteja mais próximo da realidade do que outros. Combina isso com a solidariedade liberal — ampliação do círculo de “nós” para incluir outros que sofrem.

  • Anti-Essencialismo: Não há natureza humana fixa, não há Razão com R maiúsculo, não há método privilegiado de alcançar a verdade. O progresso moral é um processo de expansão imaginativa da empatia — aprender a ver outros como “um de nós” — não derivação de princípios.

  • Filosofia e Literatura: Rorty rejeita a fronteira rígida entre filosofia e literatura. Romances, poemas e relatos pessoais podem expandir nossa solidariedade tanto quanto — ou mais do que — argumentos filosóficos.

Influenciado por

  • Dewey, James, Peirce — Pragmatismo americano
  • Wittgenstein — Investigações Filosóficas; dissolução de problemas filosóficos
  • Heidegger — critica da tradição ocidental
  • Wilfrid Sellars — crítica dos “dados” do conhecimento
  • Quine — holismo e naturalismo

Influenciou

  • Neopragmatismo (Robert Brandom, entre outros)
  • Teoria literária e estudos culturais
  • Debates sobre relativismo, democracia e pluralismo

Obras

The Linguistic Turn (ed., 1967); Philosophy and the Mirror of Nature (1979); Consequences of Pragmatism (1982); Contingency, Irony, and Solidarity (1989); Objectivity, Relativism and Truth (1991); Essays on Heidegger and Others (1991); Achieving Our Country (1998); Philosophy and Social Hope (1999); Philosophy as Cultural Politics (2007).

Ver também

Filosofia Analítica Filosofia do Século XX

Livros indicados:

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