Rodolfo Kusch
Rodolfo Kusch

Nascido em Buenos Aires em 1922, em família de origem alemã, Rodolfo Kusch uniu filosofia e antropologia de um modo raro: em vez de pensar a América a partir dos livros europeus, percorreu o noroeste argentino e o altiplano boliviano em extenso trabalho de campo, ouvindo o pensamento quéchua e aimará. Dessa experiência nasceu uma pergunta radical: a ontologia europeia seria mesmo capaz de compreender a maior parte da experiência humana?

Sua resposta gira em torno de uma distinção que o espanhol — e o português — permitem com clareza singular: a de ser e estar. O “ser” exprime o modo ocidental moderno: ser-algo, produzir, afirmar-se, projetar-se. O “estar” exprime outro modo de habitar o mundo: estar-aqui, radicado na terra, na comunidade, no aqui-e-agora — modo próprio do homem americano profundo. São, para Kusch, duas ontologias distintas e irredutíveis.

Daí seu conceito de “América profunda” (1962): sob a América “superficial”, europeizada e urbana, persiste uma América indígena e popular que não é mero resíduo pré-moderno, mas uma forma alternativa e legítima de existência. O pensamento indígena, longe de “proto-racional”, é diferentemente racional, com coerência filosófica própria. Crítico do eurocentrismo e defensor de uma filosofia enraizada no território (a “geocultura”), Kusch influenciou Enrique Dussel e os estudos decoloniais de Walter Mignolo.

Conceitos-chave

  • Ser vs. estar (América profunda, 1962): “ser” (ser-algo, produtivo, europeu moderno) vs. “estar” (estar-aquí, radicado, comunitário, ligado à terra) — dois modos ontológicos distintos e irredutíveis
  • América profunda: a América das tradições indígenas e populares persiste sob a “América superficial” europeizada; não é resíduo pré-moderno, mas forma alternativa de habitar o mundo
  • Fagocitação cultural: estratégia de sobrevivência cultural — absorção de elementos europeus e transformação por dentro, mantendo estruturas profundas pré-colombianas
  • Pensamento indígena como filosofia (El pensamiento indígena y popular en América, 1970): o pensamento andino não é proto-racional, mas diferentemente racional — possui coerência interna filosófica
  • Geocultura: todo pensamento é enraizado num território específico; o “saber popular” é saber filosófico legítimo

Influenciado por

  • Husserl e Heidegger — fenomenologia (especialmente Dasein como “estar-aí”)
  • Ludwig Binswanger — análise existencial
  • C.G. Jung — inconsciente coletivo
  • Oswald Spengler — morfologia das culturas
  • Pensamento quéchua e aymara — trabalho de campo direto

Influenciou

  • Enrique Dussel — exterioridade e crítica da ontologia europeia
  • Walter Mignolo — diferença colonial e epistemologias outras
  • Estudos de filosofia indígena na Argentina, Bolívia e Peru

Obras

La seducción de la barbarie (1953); América profunda (1962); El pensamiento indígena y popular en América (1970); La negación en el pensamiento popular (1975); Geocultura del hombre americano (1976); Esbozo de una antropología filosófica americana (1978); Obras completas (4 vols., póstumo, 2000).

Ver também

Filosofia Latino-americana Enrique Dussel Heidegger