
René Girard nasceu em Avignon, na França, em 25 de dezembro de 1923, e morreu em Stanford, na Califórnia, em 4 de novembro de 2015. Formado como paleógrafo e arquivista pela École des Chartes, mudou-se para os Estados Unidos em 1947 e doutorou-se em história pela Universidade de Indiana em 1950. Lecionou na Universidade Johns Hopkins, na Universidade Estadual de Nova York em Buffalo e, a partir de 1981, em Stanford, onde permaneceu até a aposentadoria, em 1995. Foi eleito membro da Academia Francesa em 2005.
Girard iniciou sua trajetória como crítico literário. Em Mensonge romantique et vérité romanesque (1961; Mentira Romântica e Verdade Romanesca), analisou romances de Cervantes, Stendhal, Flaubert, Proust e Dostoiévski e propôs que o desejo humano não é espontâneo, mas imitativo: desejamos um objeto porque outra pessoa, o “mediador” ou modelo, o deseja. Essa estrutura triangular é a base da teoria mimética. Em La violence et le sacré (1972), estendeu a hipótese à antropologia da religião: a imitação gera rivalidade, a rivalidade generalizada produz uma “crise mimética” que ameaça a coesão do grupo, e a crise se resolve pelo mecanismo do bode expiatório, em que a violência coletiva é canalizada contra uma vítima. Segundo Girard, os rituais sacrificiais reproduzem esse mecanismo e o mito o narra do ponto de vista dos perseguidores.
Em Des choses cachées depuis la fondation du monde (1978) e Le Bouc émissaire (1982), Girard sustentou que os relatos bíblicos, e especialmente a Paixão, revelam a inocência da vítima e desmascaram o mecanismo sacrificial, o que dá ao cristianismo um papel singular em sua leitura da cultura. Essa tese é controversa e foi criticada por antropólogos, que apontam a insuficiência de evidências empíricas para uma origem sacrificial universal da cultura, e por teólogos e filósofos, em debates sobre sua interpretação do cristianismo. Seus últimos escritos, como Achever Clausewitz (2007), voltaram-se à escalada da violência no mundo contemporâneo.
Conceitos-chave
- Desejo mimético — o desejo é imitativo e mediado por um modelo, não gerado espontaneamente pelo objeto.
- Rivalidade mimética e crise mimética — a imitação entre desejos converge sobre os mesmos objetos e gera conflito, podendo se propagar por toda a comunidade.
- Mecanismo do bode expiatório — resolução da crise pela unanimidade violenta contra uma vítima, que restaura a ordem e sacraliza o evento.
- Sacrifício e sagrado — o ritual sacrificial repete o mecanismo e contém a violência; o sagrado é lido como violência transfigurada.
- Revelação cristã da vítima inocente — tese de que os Evangelhos desmontam a lógica sacrificial.
- Mentira romântica e verdade romanesca — contraste entre a ilusão da autonomia do desejo e a lucidez dos grandes romancistas.
- Escalada aos extremos — leitura de Clausewitz como indício da dinâmica mimética da guerra moderna.
Influenciado por
- Cervantes, Stendhal, Flaubert, Proust e Dostoiévski — leituras literárias que fundamentaram a teoria do desejo
- Sigmund Freud — interlocutor e alvo de crítica, sobretudo quanto ao complexo de Édipo
- Claude Lévi-Strauss e a antropologia do século XX — pano de fundo de sua discussão sobre mito e ritual
- Carl von Clausewitz — tema de Achever Clausewitz (2007)
- A tradição bíblica e os Evangelhos
Influenciou
- Jean-Pierre Dupuy — filosofia dos riscos e das catástrofes
- Jean-Michel Oughourlian — psicologia mimética
- Raymund Schwager — teologia dramática
- Eric Gans — antropologia generativa
- O Colloquium on Violence and Religion (fundado em 1990), que reúne pesquisadores da teoria mimética
Obras
Mensonge romantique et vérité romanesque (1961); Dostoïevski: du double à l’unité (1963); La violence et le sacré (1972); Des choses cachées depuis la fondation du monde (1978); Le Bouc émissaire (1982); Je vois Satan tomber comme l’éclair (1999); Achever Clausewitz (2007).
Ver também
Fiódor Dostoiévski, Sigmund Freud, Claude Lévi-Strauss, Filosofia da Religião