W.V.O. Quine
W.V.O. Quine

Willard Van Orman Quine foi um dos mais influentes filósofos analíticos do século XX. Professor em Harvard por décadas, seu trabalho revolucionou a epistemologia, a filosofia da linguagem e a ontologia, ao mesmo tempo em que destruiu os fundamentos do positivismo lógico do Círculo de Viena. Quine é o principal elo entre o pragmatismo americano (Dewey, James) e a filosofia analítica contemporânea.

Conceitos-chave

  • Crítica à Distinção Analítico/Sintético (“Two Dogmas of Empiricism”, 1951, Philosophical Review; republicado em From a Logical Point of View, 1953): Quine ataca dois dogmas do empirismo: (1) a crença numa distinção nítida entre proposições analíticas (verdadeiras por significado, ex.: “todo solteiro é não-casado”) e sintéticas (verdadeiras por fato empírico); e (2) o reducionismo (cada enunciado tem um conteúdo empírico isolado). Quine argumenta que a noção de “analiticidade” é circular — pressupõe “sinonímia”, que pressupõe “analiticidade”.

  • Holismo Epistêmico (Tese Duhem-Quine): As crenças não enfrentam o tribunal da experiência individualmente, mas em conjunto (web of beliefs). Quando a experiência contradiz uma crença, podemos ajustar qualquer parte do sistema — inclusive leis lógicas. Esta visão é radicalmente diferente do verificacionismo sentença-por-sentença do positivismo.

  • Indeterminação da Tradução (Word and Object, 1960): O famoso exemplo de “gavagai”: diante de um nativo que profere “gavagai” ao ver um coelho, o tradutor radical pode traduzir como “coelho”, “parte não-separada de coelho” ou “instanciação de coelho” — todas as hipóteses são empiricamente equivalentes, mas mutuamente incompatíveis. Não há fato da matéria que determine a tradução correta. Tese radical sobre os limites do significado.

  • Ontological Relativity (“Ontological Relativity”, 1968; em Ontological Relativity and Other Essays, 1969): O que existe é relativo ao esquema conceitual adotado. O critério de compromisso ontológico de Quine: uma teoria se compromete com a existência de X se e somente se precisa quantificar sobre X para ser verdadeira — “to be is to be the value of a bound variable”.

  • Epistemologia Naturalizada (“Epistemology Naturalized”, em Ontological Relativity, 1969): A epistemologia tradicional buscava fundamentos a priori para o conhecimento. Quine propõe abandonar este projeto: a epistemologia deve ser naturalizada — tornar-se um capítulo da psicologia e neurociência, investigando empiricamente como os humanos chegam à ciência a partir de inputs sensoriais.

  • Comportamentalismo Semântico: O significado de termos deve ser explicado em termos de disposições verbais observáveis — sem apelo a entidades mentais misteriosas. Esta posição é coerente com o naturalismo de Quine mas gera tensão com a fenomenologia da linguagem.

Influenciado por

  • Russell — lógica matemática e análise lógica
  • Carnap e o Círculo de Viena — positivismo lógico (incorporado criticamente)
  • Hume — ceticismo empírico e holismo
  • Dewey e o Pragmatismo americano
  • Alfred Tarski — teoria semântica da verdade

Influenciou

  • Davidson — semântica e filosofia da mente
  • Hilary Putnam — externalismo semântico (com críticas a Quine)
  • Rorty — naturalismo e crítica à epistemologia
  • Filosofia da ciência e filosofia da biologia
  • Teoria da linguagem contemporânea

Obras

From a Logical Point of View (1953); Word and Object (1960); Set Theory and Its Logic (1963); The Ways of Paradox (1966); Ontological Relativity and Other Essays (1969); The Web of Belief (com J.S. Ullian, 1970); The Roots of Reference (1974); Theories and Things (1981); The Time of My Life (autobiografia, 1985); Pursuit of Truth (1990); From Stimulus to Science (1995).

Ver também

Filosofia Analítica Racionalismo e Empirismo

Livros indicados:

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