Porfirio
Porfirio

Porfírio de Tiro — em grego Porphýrios, nome adotado a partir do original semita Malco (em fenício, “rei”) — nasceu por volta de 234 d.C. em Tiro (na atual costa do Líbano) e morreu cerca de 305 d.C. Atenção: não deve ser confundido com Porfírio de Gaza (séc. V), bispo cristão homônimo, nem com outros personagens tardios que carregaram o mesmo nome. Após estudar em Atenas com Cássio Longino, juntou-se em c. 263 d.C. ao círculo de Plotino em Roma, do qual se tornou o discípulo mais célebre. Tornou-se editor das Enéadas (publicação póstuma c. 301), agrupando os escritos do mestre em seis grupos de nove tratados, precedidos por uma Vita Plotini (Vida de Plotino) — fonte biográfica fundamental sobre Plotino. Sua influência, contudo, vai muito além da edição dos textos plotinianos: através da Isagoge, Porfírio formatou o ingresso da lógica aristotélica no mundo medieval.

Conceitos-chave

  • Isagoge ou os cinco predicáveis (Isagoge, “Introdução”): obra breve concebida como introdução às Categorias de Aristóteles. Define gênero, espécie, diferença, próprio e acidente. Traduzida ao latim por Boécio, tornou-se manual obrigatório da lógica medieval.
  • O problema dos universais (Isagoge, abertura): Porfírio formula explicitamente três questões clássicas, recusando-se a resolvê-las — se os gêneros e espécies existem em si, ou apenas no pensamento; se, existindo, são corporais ou incorporais; se separados ou nos sensíveis. Este praeteritio é a semente da grande disputa medieval entre realismo e nominalismo.
  • Vida contemplativa e ascese (De abstinentia): defesa da abstinência de carnes por motivos éticos, religiosos e filosóficos; a alma se purifica desligando-se do excesso corporal.
  • Vida do filósofo como salvação (Sententiae ad intelligibilia ducentes): coletânea de aforismos que sintetiza a metafísica plotiniana — o retorno da alma ao Uno como caminho propriamente filosófico, não-teúrgico.
  • Crítica da teurgia — divergência com Jâmblico, seu discípulo e depois rival: Porfírio mantém a ascensão filosófica da alma como via principal, enquanto Jâmblico introduz rituais teúrgicos. A Carta a Anebo expõe as objeções porfirianas.
  • Polêmica anticristã (Contra Christianos, 15 livros): ataque sistemático ao cristianismo, com crítica histórico-filológica das Escrituras. A obra foi condenada à destruição por Constantino e novamente por Teodósio II (448 d.C.) e sobrevive apenas em fragmentos citados por adversários.
  • Pitagorismo e tradição (Vita Pythagorae, De antro nympharum): leitura alegórica de Homero e biografia idealizada de Pitágoras, situando o neoplatonismo numa tradição venerável.

Influenciado por

  • Plotino — mestre direto, cujas Enéadas edita
  • Longino — formação em filologia e retórica em Atenas
  • Platão e Aristóteles — comentário e harmonização das duas tradições
  • Pitagorismo — modelo do filósofo como guia espiritual

Influenciou

  • Boécio — tradutor da Isagoge ao latim e comentador, condutor da lógica antiga à Idade Média
  • Disputa medieval dos universais (Abelardo, Anselmo, Tomás de Aquino, Ockham) — todos partem das questões formuladas por Porfírio
  • Jâmblico (em parte por oposição) e a tradição teúrgica posterior
  • Patrística cristã (apesar do Contra Christianos): Agostinho e outros leram seus textos lógicos e metafísicos
  • Vegetarianismo filosófico ocidental

Obras

Principais escritos preservados (parcial ou integralmente): Isagoge (Introdução às Categorias de Aristóteles), Vita Plotini (Vida de Plotino, prefácio às Enéadas), Sententiae ad intelligibilia ducentes (Sentenças que conduzem ao inteligível), De abstinentia ab esu animalium (Sobre a abstinência de animais), Vita Pythagorae (Vida de Pitágoras), De antro nympharum (Sobre o antro das ninfas), Carta a Marcela. Em grande parte perdidos: Contra Christianos e numerosos comentários a Platão e Aristóteles.

Ver também

Plotino; Aristóteles; Platão