
Philippa Foot (1920–2010) foi uma das mais influentes filósofas morais britânicas do século XX e figura central no renascimento da ética da virtude. Formada e por muito tempo radicada em Oxford, ensinou também por longos períodos nos Estados Unidos. Sua trajetória intelectual representa um desafio sistemático ao não-cognitivismo e ao emotivismo que dominavam a metaética anglófona do pós-guerra: contra a tese de uma separação radical entre fato e valor, Foot procurou mostrar que os juízos morais têm conteúdo cognitivo e estão enraizados em fatos sobre a vida humana. Sua obra culmina no naturalismo ético neoaristotélico de Natural Goodness (2001). Foi também figura de consciência cívica: ajudou a fundar a Oxfam, organização de combate à fome e à pobreza.
Conceitos-chave
- Problema do bonde (trolley problem) (“The Problem of Abortion and the Doctrine of Double Effect”, 1967): Foot introduziu o experimento mental que se tornaria onipresente na ética contemporânea, originalmente para examinar a doutrina do duplo efeito e a distinção entre matar e deixar morrer, e não como mero quebra-cabeça.
- Crítica aos imperativos hipotéticos (“Morality as a System of Hypothetical Imperatives”, 1972): contra Kant, Foot argumentou que as exigências morais não têm a força de imperativos categóricos independentes dos desejos do agente; em momento posterior, porém, revisou parcialmente essa posição, buscando fundamentar a normatividade moral em outro terreno.
- Recusa da dicotomia fato/valor: ao longo de sua obra, Foot contestou a ideia humeana e emotivista de que não há inferência legítima de “é” para “deve”, sustentando que conceitos avaliativos como virtude e vício estão ligados a fatos sobre o bem humano.
- Virtudes e vícios (Virtues and Vices, coletânea de 1978): as virtudes são disposições corretivas, que orientam o agente contra tentações e deficiências típicas da natureza humana; são benéficas tanto para o agente quanto para a comunidade.
- Bondade natural (Natural Goodness, 2001): a bondade moral é uma espécie de bondade natural, avaliável em relação à forma de vida característica da espécie humana — assim como se avalia se um carvalho ou um lobo “vão bem” segundo o que é próprio de sua espécie. Foot apoia-se aqui na noção de “proposições aristotélicas categóricas” desenvolvida por Michael Thompson.
Influenciado por
- Aristóteles — ética das virtudes e florescimento
- Tomás de Aquino — naturalismo prático
- Elizabeth Anscombe — amiga e interlocutora; “Modern Moral Philosophy”
- Ludwig Wittgenstein — através do clima filosófico de Oxford
Influenciou
- Alasdair MacIntyre — revival da virtude
- Rosalind Hursthouse — ética da virtude neoaristotélica (On Virtue Ethics)
- Martha Nussbaum — naturalismo aristotélico e florescimento
- Michael Thompson — interlocução sobre a forma de vida
Obras
A reputação de Foot consolidou-se primeiro por meio de artigos seminais, posteriormente reunidos em Virtues and Vices and Other Essays in Moral Philosophy (1978), volume que inclui “The Problem of Abortion and the Doctrine of Double Effect” (1967) e “Morality as a System of Hypothetical Imperatives” (1972). Seu único livro propriamente sistemático, Natural Goodness (2001), apresenta a versão madura de seu naturalismo ético. Outros ensaios foram coligidos em Moral Dilemmas and Other Topics in Moral Philosophy (2002).
Ver também
Aristóteles, Elizabeth Anscombe, Martha Nussbaum