
Nikolai Aleksándrovitch Berdiáev (18 de março de 1874, Kiev — 24 de março de 1948, Clamart, França) foi filósofo religioso e político russo, frequentemente descrito como um “existencialista cristão”. De origem aristocrática, começou marxista — chegou a ser exilado internamente sob o tsarismo por suas atividades —, mas rompeu cedo com o materialismo rumo ao idealismo e à Ortodoxia. Participou da coletânea crítica Vekhi (1909). Expulso da Rússia soviética em 1922, no episódio dos “navios dos filósofos”, viveu em Berlim e depois em Clamart, perto de Paris, onde dirigiu a revista Put e se tornou a voz mais conhecida do pensamento russo no exílio. Foi indicado várias vezes ao Prêmio Nobel.
Conceitos-chave
- Liberdade primordial e o Ungrund: a tese mais original de Berdiáev. A liberdade não é criada por Deus, mas o antecede: enraíza-se no Ungrund, o “abismo sem fundo” anterior ao ser, conceito que toma do místico Jakob Böhme. Essa liberdade incriada permite explicar a origem do mal sem responsabilizar Deus — uma teodiceia da liberdade.
- Personalismo: a pessoa (litchnost) é a categoria suprema e o valor absoluto, irredutível ao indivíduo biológico ou à unidade social. Berdiáev afirma o primado da pessoa sobre a sociedade, o Estado e toda coletividade — tema de Da Escravidão e da Liberdade do Homem (1939).
- Criatividade (tvortchestvo): o ato criador é a vocação central do ser humano e a continuação da criação divina. Em O Sentido da Criação (1916), Berdiáev vê na criatividade a verdadeira resposta humana à imagem de Deus — não a mera obediência, mas a participação ativa na obra do mundo.
- Objetivação (obiektivatsia): a queda do espírito no mundo “objetivado” — o mundo da necessidade, da exterioridade e da coisificação, oposto ao mundo interior do espírito e da liberdade. Conhecer e socializar tendem a objetivar; a tarefa é resgatar o existencial sob o objetivado.
- Filosofia da história e escatologia: em O Sentido da História (1923), recusa a ideia de progresso indefinido e atribui à história um sentido escatológico, voltado para um fim que a transcende. Uma Nova Idade Média (1924) anuncia o fim da era humanista-individualista moderna.
- Crítica do comunismo e do espírito burguês: em As Origens e o Sentido do Comunismo Russo (1937), interpreta o bolchevismo como secularização de um messianismo religioso tipicamente russo. Berdiáev critica tanto o materialismo burguês quanto o totalitarismo, em nome da liberdade do espírito.
Influenciado por
- Jakob Böhme — o Ungrund, a liberdade abissal
- Kant — a distinção entre fenômeno e liberdade (lida de modo existencial)
- Dostoiévski — a liberdade e o problema do mal (a Lenda do Grande Inquisidor)
- Vladímir Soloviov — a filosofia religiosa russa
- Nietzsche e Kierkegaard — a crítica da moral e o pathos existencial
- Marx — a análise social (na fase inicial, depois superada)
Influenciou
- Emmanuel Mounier e o personalismo francês (revista Esprit)
- O existencialismo cristão do século XX
- O pensamento ortodoxo no exílio
- A recepção ocidental de Dostoiévski como filósofo
Obras
A Filosofia da Liberdade (1911); O Sentido da Criação (1916); O Sentido da História (1923); Dostoiévski (1923); Uma Nova Idade Média (1924); O Destino do Homem (1931); As Origens e o Sentido do Comunismo Russo (1937); Da Escravidão e da Liberdade do Homem (1939); A Ideia Russa (1946); Autoconhecimento (autobiografia, póstuma, 1949).
Ver também
Vladímir Soloviov, Mikhail Bakhtin