
Nancy Fraser (n. 20 de maio de 1947, Baltimore) é uma teórica crítica e filósofa feminista norte-americana, professora emérita da cátedra Henry A. and Louise Loeb na New School for Social Research, em Nova York. Herdeira da tradição da Escola de Frankfurt, é uma das vozes mais influentes da teoria crítica contemporânea. Sua contribuição mais célebre foi reformular a questão da justiça em torno da tensão entre redistribuição (a dimensão econômica) e reconhecimento (a dimensão cultural), alertando para o risco de que as lutas por identidade e visibilidade eclipsem as lutas por igualdade material. Nas últimas décadas, ampliou esse diagnóstico numa crítica abrangente do capitalismo e de suas relações com o feminismo, a ecologia e a democracia.
Conceitos-chave
- Redistribuição e reconhecimento (From Redistribution to Recognition?, 1995; Justice Interruptus, 1997): a justiça tem duas dimensões irredutíveis — a má distribuição econômica (classe) e o não-reconhecimento cultural (status). Reduzir uma à outra é um erro: nem toda injustiça econômica se resolve com reconhecimento, nem toda injustiça cultural se resolve com redistribuição. O desafio é articular as duas sem subordinar uma à outra.
- Paridade participativa e o modelo do status: contra o “modelo da identidade” do reconhecimento (que Fraser atribui a Charles Taylor e Axel Honneth, e que arriscaria reificar identidades de grupo), ela propõe um modelo do status: o que se reivindica não é o respeito a uma identidade, mas a remoção dos obstáculos institucionais que impedem certos sujeitos de participar como pares na vida social. A norma reguladora é a paridade participativa. Esse foi o cerne de seu debate público com Honneth (Redistribution or Recognition?, 2003).
- Contrapúblicos subalternos (Rethinking the Public Sphere, 1990): num diálogo crítico com Habermas, Fraser mostra que a esfera pública burguesa idealizada nunca foi inclusiva; os grupos subordinados constituem contrapúblicos — arenas paralelas onde elaboram interpretações alternativas de suas identidades e interesses.
- As três dimensões da justiça e o problema do enquadramento (Scales of Justice, 2008): à redistribuição (econômica) e ao reconhecimento (cultural), Fraser acrescenta a representação (política). E levanta a questão do “quem” da justiça: numa era global, decidir quem conta como sujeito de justiça é, ele próprio, um ato político — daí sua crítica ao “enquadramento westfaliano”, que confina a justiça às fronteiras do Estado-nação.
- Feminismo e neoliberalismo (Fortunes of Feminism, 2013): numa autocrítica corajosa, Fraser argumenta que o feminismo da “segunda onda”, ao deslocar o foco da crítica da economia política para a política da identidade, foi parcialmente capturado pelo neoliberalismo, tornando-se sua involuntária “serva”. Daí sua crítica posterior ao “neoliberalismo progressista”.
- Capitalismo canibal (Cannibal Capitalism, 2022): em diálogo com Marx e Karl Polanyi, Fraser sustenta que o capitalismo devora as próprias condições de que depende — o trabalho de cuidado e a reprodução social, a natureza e o poder político —, gerando crises não só econômicas, mas de cuidado, ecológicas e democráticas.
Influenciado por
- Habermas — esfera pública e teoria crítica (em diálogo crítico)
- Karl Marx — crítica da economia política
- Karl Polanyi — a “dupla transformação” e os limites do mercado
- A Escola de Frankfurt — teoria social com intenção emancipatória
- A teoria feminista das décadas de 1970–80
Influenciou
- A teoria feminista contemporânea
- Os debates sobre justiça, reconhecimento e redistribuição
- A teoria da justiça global e transnacional
- A crítica contemporânea do capitalismo e da crise do cuidado
Obras
Unruly Practices (1989); Justice Interruptus (1997); Redistribution or Recognition? A Political-Philosophical Exchange (com Axel Honneth, 2003); Scales of Justice (2008); Fortunes of Feminism (2013); Feminism for the 99% (manifesto, com Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya, 2019); Cannibal Capitalism (2022). É também conhecida por seu debate com Judith Butler sobre os limites entre o “cultural” e o “econômico” (1997–98).
Ver também
Iris Marion Young, Habermas