
Nāgārjuna (c. 150–c. 250 d.C.) é o fundador da escola Mādhyamaka do Budismo Mahāyāna e é considerado, em muitas tradições budistas, como o segundo Buda. Sua obra exerceu influência decisiva sobre o Budismo tibetano, chinês (e daí japonês e coreano), bem como sobre a filosofia indiana posterior. Sua principal obra, a Mūlamadhyamakakārikā (MMK — Versos Fundamentais sobre o Caminho do Meio), é um dos textos mais comentados e discutidos da história da filosofia.
Nota crítica sobre datação e autoria: As datas de Nāgārjuna são aproximadas e baseadas em fontes indiretas. A atribuição a ele de vários textos (além da MMK) é debatida na erudição especializada — pode ter havido mais de um autor chamado Nāgārjuna.
Conceitos-chave
Śūnyatā (空 / शून्यता) — Vacuidade: O conceito central do Mādhyamaka. Todos os fenômenos são śūnya (vazios) de existência inerente (svabhāva). Isto não significa que os fenômenos não existem — significa que não existem por si mesmos, de modo independente, com uma natureza intrínseca fixada. Tudo existe em dependência de causas, condições e designação conceitual.
Pratītyasamutpāda (緣起) — Originação Dependente: O fundamento do Budismo primitivo que Nāgārjuna radicaliza. Todo fenômeno surge dependentemente — não há nada que exista de modo não-relacional. Nāgārjuna usa este princípio para mostrar que até os conceitos de svabhāva (existência inerente), dharmas (constituintes da realidade), tempo e causalidade são vazios de existência independente.
A Vacuidade da Vacuidade: Para prevenir que śūnyatā seja reificada em novo absoluto (um Nada metafísico), Nāgārjuna afirma que a própria vacuidade é vazia. A vacuidade não é uma entidade real independente — é uma designação convencional útil para apontar para a ausência de existência inerente. Afirmar “tudo é vazio” ainda é um enunciado convencional.
As Duas Verdades: Doutrina das Duas Verdades (dvayasatya):
- Saṁvṛti-satya (verdade convencional / mundana): No nível ordinário da experiência, as distinções entre coisas, causas e efeitos, virtude e vício são válidas e operacionais. A convenção não é negada.
- Paramārtha-satya (verdade última / suprema): No nível último, os fenômenos são vazios de existência inerente. Nirvāṇa e saṁsāra não diferem em última instância — ambos são vazios. A confusão entre os dois níveis é uma das principais fontes de erro filosófico e sofrimento.
Catuskoṭi (四句) — Tetralemma: Esquema lógico de quatro posições: P, não-P, P e não-P, nem P nem não-P. Nāgārjuna usa sistematicamente o tetralemma para mostrar que nenhuma das quatro posições metafísicas sobre a natureza dos fenômenos é defensável — resultado que aponta para o silêncio além das categorias conceituais.
Prasaṅga (Consequência Absurda): Método argumentativo preferido de Nāgārjuna. Em vez de estabelecer teses positivas, deriva consequências absurdas das posições do adversário — refutação sem afirmar uma posição própria alternativa.
Nirvāṇa e Saṁsāra: Na MMK final, Nāgārjuna afirma que não há diferença essencial entre nirvāṇa (liberação) e saṁsāra (ciclo de renascimentos): ambos são vazios. Esta posição provocou longa controvérsia — alguns a entendem como colapso da distinção prática, outros a leem como indicação de que a liberação não é passagem para outro realm, mas transformação da perspectiva.
Influenciado por
- Ensinamentos budistas primitivos (Cânone Pāli e Āgamas)
- Textos Prajñāpāramitā (Perfeição da Sabedoria, c. séc. I a.C. – I d.C.)
- Tradição Abhidharma — que Nāgārjuna critica extensamente
Influenciou
- Āryadeva (c. séc. II–III d.C.) — principal discípulo
- Candrakīrti (c. séc. VII d.C.) — sistematização do Prāsaṅgika Mādhyamaka
- Tsongkhapa (1357–1419) — transmissão tibetana do Mādhyamaka
- Tradições Zen/Chan — ideia de vacuidade e paradoxo
- Derek Parfit — reconheceu afinidades entre o Mādhyamaka e sua tese sobre identidade pessoal em Reasons and Persons
Obras
Mūlamadhyamakakārikā (MMK, Versos Fundamentais sobre o Caminho do Meio); Vigrahavyāvartanī (A Refutação das Objeções); Śūnyatāsaptati (Setenta Versos sobre a Vacuidade); Ratnāvalī (Guirlanda Preciosa); Yuktisāsṭikā (Sessenta Versos sobre o Raciocínio) — atribuição de alguns textos é debatida.
Ver também
Filosofia Oriental Filosofia Helenística
Livros indicados:
Mūlamadhyamakakārikā — Nāgārjuna (trad. Jay Garfield)
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