Michel de Montaigne
Michel de Montaigne

Nascido em 1533 no castelo da família, no Périgord, Michel de Montaigne recebeu uma educação humanista esmerada — criado para falar latim como primeira língua. Foi magistrado no Parlamento de Bordéus, onde viveu a amizade profunda com Étienne de La Boétie, cuja morte o marcaria para sempre. Por volta de 1571, retirou-se para a torre de seu castelo, cercado de livros, e ali, em meio às sangrentas Guerras de Religião, começou a escrever uma obra de gênero inteiramente novo: os Ensaios. É um dos pais do pensamento moderno e o inventor do ensaio como forma literária e filosófica.

O essai não é tratado nem sistema, mas “tentativa”: uma exploração livre e inconclusa em que o próprio autor é, ao mesmo tempo, objeto e instrumento. “Cada homem”, escreve Montaigne, “traz em si a forma inteira da condição humana”; por isso, ao examinar a si mesmo com honestidade sem precedentes — suas contradições, hábitos, medos —, fala de todos nós. Seu lema, gravado numa medalha, é uma pergunta: “Que sais-je?” (“Que sei eu?”).

Essa pergunta condensa seu ceticismo moderado, herdeiro do pirronismo antigo (Pirro): não um niilismo paralisante, mas uma humildade intelectual que desconfia das certezas dogmáticas e, por isso mesmo, liberta. Dessa atitude nascem um relativismo cultural notável para a época — no ensaio “Dos canibais”, julga mais bárbaros os europeus que torturam do que os povos do Novo Mundo — e uma firme crítica à crueldade. Inclinado à moderação de Epicuro e Sêneca, Montaigne influenciou diretamente Descartes (cuja dúvida metódica responde à sua), Pascal e toda a tradição do ensaísmo e da tolerância iluminista.

Conceitos-chave

  • O ensaio como forma: não é tratado sistemático — é tentativa (essai), exploração sem conclusão definitiva; o eu pensante é o objeto e o instrumento da investigação. “Cada homem traz em si a forma inteira da condição humana”
  • Ceticismo moderado (“Que sais-je?” — Que sei eu?): duvida das certezas filosóficas, religiosas e científicas; o pirronismo antigo (Pirro) relido como humildade intelectual, não como niilismo. A dúvida libera e não paralisa
  • Relativismo cultural: visitou a “canibalismo” — e concluiu que os europeus que torturam por prazer são mais bárbaros que os tupinambás; o costume é o tirano das opiniões
  • Autoconhecimento: Que sais-je? começa em mim — o eu instável, contraditório, fluido; contra toda doutrina de uma essência fixa do homem. “Eu não pinto o ser, pinto a passagem”
  • Crítica à crueldade: abominou a tortura e a violência; defesa precoce da compaixão como fundamento moral
  • Epicurismo e estoicismo: dialoga com ambos; inclina-se à moderação epicurista — viver bem é viver com prazer sensato, amizade e retiro

Influenciado por

  • Pirro e ceticismo antigo — dúvida como postura filosófica
  • Epicuro e Sêneca — arte de viver, presença no momento
  • Humanismo renascentista — Erasmo, Plutarco
  • Experiência das Guerras de Religião — desconfiança das certezas ideológicas

Influenciou

  • Descartes — dúvida metódica (responde ao ceticismo de Montaigne)
  • Pascal — Pensées dialoga com Montaigne
  • Francis Bacon — ensaio inglês e empirismo
  • Ceticismo moderno e empirismo britânico
  • Iluminismo — tolerância e relativismo cultural

Obras

Ensaios (1580, 1588, edição póstuma 1595) — 3 livros, 107 capítulos; Diário de Viagem (póstumo).

Ver também

Humanismo e Renascimento

Livros indicados:

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