
Mikhail Mikháilovitch Bakhtin (16 de novembro de 1895, Oriol — 7 de março de 1975, Moscou) foi filósofo da linguagem, teórico da literatura e da cultura. Marginalizado e quase desconhecido em vida na União Soviética — preso e enviado ao exílio em 1929, lecionou por décadas em universidades provincianas —, foi redescoberto a partir dos anos 1960 e tornou-se um dos pensadores russos mais influentes do mundo nas ciências humanas. Foi o centro do chamado Círculo de Bakhtin, que reunia também Valentin Volóchinov e Pável Medviédev (a autoria de algumas obras assinadas por eles é objeto de debate acadêmico).
Conceitos-chave
- Dialogismo: o princípio fundamental de seu pensamento. Todo enunciado é constitutivamente dirigido a um outro e responde a enunciados anteriores; o sentido não se origina numa consciência isolada, mas na interação entre vozes. À palavra “monológica”, que pretende fechar o sentido, opõe-se a palavra dialógica, sempre aberta à resposta.
- Polifonia: em Problemas da Poética de Dostoiévski (1929; revisto em 1963), Bakhtin descreve o romance dostoievskiano como polifônico — uma pluralidade de vozes e consciências autônomas, plenamente válidas, que não se subordinam a uma voz autoral única. O autor não fala sobre as personagens, mas com elas.
- Heteroglossia (raznoretchie): a estratificação social da língua em uma multiplicidade de discursos, jargões e vozes em tensão. O romance é, por excelência, o gênero capaz de orquestrar essa diversidade — tese do ensaio “O Discurso no Romance”.
- Carnavalização e o carnavalesco: em sua obra sobre François Rabelais (A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, tese dos anos 1940, publicada em 1965), analisa a cultura cômica popular, o “realismo grotesco”, o corpo e o riso como forças que invertem temporariamente as hierarquias e abrem um espaço de liberdade e renovação.
- Cronotopo: a configuração indissociável de tempo e espaço nas formas narrativas. Cada gênero literário organiza sua própria relação tempo-espaço, que Bakhtin usa como categoria de análise histórica das formas.
- O ato responsável e a “filosofia do ato”: em Para uma Filosofia do Ato (escrito no início dos anos 1920, publicado postumamente em 1986), Bakhtin elabora uma ética do ato singular e irrepetível e da “não-álibi no ser” — a responsabilidade (otvetstvennost) do sujeito concreto e situado, que não pode delegar sua participação na existência.
- Exotopia e inacabamento: a compreensão do outro exige um “estar de fora” (vnenakhodimost); e tanto a pessoa quanto o sentido permanecem sempre abertos e inacabados (nezavershennost) — jamais redutíveis a uma definição final.
Influenciado por
- O neokantismo (a Escola de Marburg, Hermann Cohen) — na obra de juventude
- Dostoiévski — objeto e modelo do pensamento dialógico
- A reflexão sobre a linguagem e o personalismo de seu tempo
Influenciou
- Tzvetan Todorov, que o apresentou ao Ocidente (Mikhaïl Bakhtine: le principe dialogique, 1981)
- Julia Kristeva — o conceito de intertextualidade, derivado do dialogismo
- A teoria literária, a análise do discurso e os estudos culturais contemporâneos
- A semiótica da cultura (em diálogo com a Escola de Tártu-Moscou de Iúri Lotman)
Obras
Para uma Filosofia do Ato (escrito c. 1920–24; publicado em 1986); Problemas da Poética de Dostoiévski (1929; ed. revista 1963); A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais (1965); Questões de Literatura e de Estética (ensaios, incl. “O Discurso no Romance”); Estética da Criação Verbal (ensaios tardios, incl. “Os Gêneros do Discurso”).
Ver também
Vladímir Soloviov, Nikolai Berdiáev