Miguel de Unamuno
Miguel de Unamuno

Miguel de Unamuno y Jugo nasceu em Bilbau, em 29 de setembro de 1864, e morreu em Salamanca, em 31 de dezembro de 1936. Catedrático de língua e literatura gregas da Universidade de Salamanca, foi seu reitor entre 1900 e 1914 e de novo a partir de 1931, durante a Segunda República. Figura central da chamada Geração de 98, escreveu ensaio, poesia, teatro e romance, e recusou a separação rígida entre filosofia e literatura. Por sua oposição à ditadura de Primo de Rivera foi desterrado em 1924 para Fuerteventura e depois viveu em Paris e Hendaia até 1930.

Seu pensamento recusa o sistema e parte do “homem de carne e osso” (hombre de carne y hueso), não do sujeito abstrato. Em Del sentimiento trágico de la vida en los hombres y en los pueblos (1912), sua obra filosófica mais conhecida, descreve um conflito insuperável entre a razão, que não consegue demonstrar a imortalidade pessoal, e o anseio vital de não morrer, a “fome de imortalidade”. Dessa contradição surge a vida como agonia (luta) e a fé como aposta sustentada na incerteza, e não como certeza racional. Unamuno dialoga com Kierkegaard (cuja obra leu no original dinamarquês), com Pascal e com Spinoza, este último como contraponto de sua busca da persistência individual (conatus).

Em En torno al casticismo (1895) formulou a noção de intra-história (intrahistoria): a vida silenciosa e cotidiana dos povos, distinta dos acontecimentos que a historiografia registra. Em Vida de Don Quijote y Sancho (1905), propôs uma leitura do personagem de Cervantes como figura de fé e de heroísmo quixotesco. Na ficção, criou a “nivola” — termo com que designou Niebla (1914) — e escreveu Abel Sánchez (1917) e San Manuel Bueno, mártir (1931), que dramatizam as dúvidas religiosas.

O episódio de 12 de outubro de 1936. Na abertura do ato do Dia da Raça no paraninfo da Universidade de Salamanca, já iniciada a Guerra Civil, Unamuno, que presidia a sessão, interveio após discursos que atacavam catalães e bascos e se confrontou com o general José Millán-Astray. A versão popularizada, com a frase “venceréis pero no convenceréis”, remonta a um relato de Luis Portillo publicado em 1941 na revista Horizon. A historiografia recente, em especial o trabalho de Severiano Delgado (Universidade de Salamanca), sustenta que essa formulação é uma reconstrução literária posterior, e que as palavras exatas de Unamuno não podem ser recuperadas com segurança. O que está documentado é que o claustro da universidade lhe retirou a confiança como reitor em 14 de outubro e que o cargo foi declarado vago por decretos de Franco; Unamuno morreu semanas depois, em 31 de dezembro de 1936.

Conceitos-chave

  • Sentimento trágico da vida — o conflito entre razão e anseio de imortalidade, núcleo de Del sentimiento trágico de la vida (1912).
  • Homem de carne e osso — o indivíduo concreto que nasce, sofre e morre, ponto de partida da filosofia.
  • Fome de imortalidade — desejo de persistir como pessoa individual, que a razão não satisfaz.
  • Agonia — vida e fé como luta; título de La agonía del cristianismo (1925).
  • Intra-história — vida cotidiana e anônima dos povos, substrato da tradição (En torno al casticismo, 1895).
  • Nivola — gênero romanesco de Unamuno, centrado em conflito de ideias e personagens.

Influenciado por

  • Kierkegaard — a existência individual e a fé como paradoxo
  • Pascal — a tensão entre razão e coração
  • Santo Agostinho — a inquietude do coração
  • William James — a vontade de crer e o pragmatismo religioso
  • Schopenhauer e Nietzsche — como interlocutores da crítica à razão

Influenciou

  • José Ortega y Gasset — interlocutor e, em muitos pontos, antagonista da mesma geração intelectual
  • María Zambrano — que o leu e o discutiu em sua reflexão sobre filosofia e poesia
  • A recepção do existencialismo na filosofia e na literatura de língua espanhola do século XX

Obras

En torno al casticismo (1895); Vida de Don Quijote y Sancho (1905); Del sentimiento trágico de la vida en los hombres y en los pueblos (1912); Niebla (1914); Abel Sánchez (1917); La agonía del cristianismo (1925); Cómo se hace una novela (1927); San Manuel Bueno, mártir (1931).

Ver também

Kierkegaard, Pascal, José Ortega y Gasset, María Zambrano