Maurice Merleau-Ponty
Maurice Merleau-Ponty

Nascido em 1908, na França, Maurice Merleau-Ponty formou-se na École Normale Supérieure ao lado de Sartre e Simone de Beauvoir, com quem fundaria a revista Les Temps Modernes antes de uma ruptura política. Em 1952 tornou-se o mais jovem catedrático de filosofia do Collège de France. Morreu subitamente em 1961, deixando inacabada sua última obra. É o grande fenomenólogo do corpo.

Sua originalidade está em deslocar o centro da fenomenologia. Onde Husserl e o primeiro Sartre situavam a subjetividade na consciência, Merleau-Ponty a situa no corpo próprio (corps propre). O corpo não é um objeto que a mente habita, nem uma máquina movida pela alma: eu sou meu corpo. É por ele, e não por uma consciência desencarnada, que tenho um mundo — donde o primado da percepção, anterior a toda reflexão e a toda separação entre sujeito e objeto.

Disso decorre uma crítica radical ao dualismo cartesiano de Descartes: a cisão entre mente e corpo é uma abstração, pois a experiência vivida é sempre encarnada. O exemplo predileto de Merleau-Ponty é o da mão que toca a outra mão e, no mesmo gesto, é por ela tocada — ambiguidade irredutível entre o sentir e o ser sentido. Em sua obra tardia, ele a generaliza no conceito de carne (chair): um tecido comum de que o corpo e o mundo são feitos. Sua influência alcança a filosofia do corpo, a estética, os estudos de gênero (Judith Butler) e as ciências cognitivas da cognição corporificada.

Conceitos-chave

  • Corpo próprio (corps propre): o corpo não é um objeto entre objetos — é o veículo do ser-no-mundo; eu sou meu corpo, não tenho um corpo. O corpo é sujeito antes de ser objeto
  • Primado da percepção: a percepção não é um ato de consciência que interpreta dados sensoriais — é o modo originário de acesso ao mundo; anterior à distinção sujeito/objeto
  • Esquema corporal: o corpo tem uma orientação intencional pré-reflexiva; o exemplo da mão que toca e é tocada — ambiguidade irredutível entre sujeito e objeto
  • Carne (chair, em O Visível e o Invisível): a carne não é matéria nem espírito — é o elemento comum que faz o mundo e o corpo serem da mesma textura; quiasma entre o tocante e o tocado
  • Crítica ao dualismo cartesiano: Descartes separou radicalmente mente e corpo; Merleau-Ponty mostra que essa separação é abstrata — a experiência vivida é sempre encarnada
  • Filosofia da linguagem: a fala não é tradução de pensamentos já formados — o pensamento se forma na fala; gesto linguístico como extensão do gesto corporal

Influenciado por

  • Husserl — fenomenologia (especialmente as Ideias II e a Lebenswelt)
  • Heidegger — ser-no-mundo e superação da consciência pura
  • Gestalt — psicologia da percepção como figura/fundo
  • Sartre — existencialismo (mas diverge no papel do corpo)

Influenciou

  • Filosofia do corpo e da corporalidade
  • Dança, artes cênicas e teoria estética da performance
  • Ciências cognitivas corporificadas (embodied cognition)
  • Derrida — quiasma e reversibilidade
  • Judith Butler — corporalidade e gênero

Obras

A Estrutura do Comportamento (1942); Fenomenologia da Percepção (1945); O Visível e o Invisível (póstumo, 1968); O Olho e o Espírito (1961).

Ver também

Filosofia do Século XX

Livros indicados:

Capa do livro Uma história da filosofia - Vol. IV - do utilitarismo a Sartre Uma história da filosofia - Vol. IV - do utilitarismo a Sartre Ver na Amazon →