
John McTaggart Ellis McTaggart nasceu em Londres em 3 de setembro de 1866 e passou quase toda a sua carreira como fellow e lecturer de filosofia no Trinity College, Cambridge; aposentou-se em 1923 e morreu em Londres em 18 de janeiro de 1925. Formado no idealismo britânico da virada do século — ao lado de Francis Herbert Bradley e influenciado decisivamente por Hegel —, McTaggart desenvolveu uma metafísica de alcance sistemático e original que destoa tanto do monismo absoluto de Bradley quanto do naturalismo emergente que marcaria o século XX. Sua obra maior, The Nature of Existence (2 vols., 1921–1927), constitui um dos últimos grandes sistemas metafísicos da filosofia de língua inglesa, construído com rigor lógico comparável ao das Ciências da Lógica hegeliana. No campo da filosofia do tempo, sua distinção entre Série A e Série B, publicada no artigo “The Unreality of Time” (Mind, 1908), tornou-se o ponto de partida obrigatório de todo debate posterior sobre a ontologia temporal.
O problema central de McTaggart é duplo: de um lado, demonstrar que o tempo, tal como ordinariamente concebido, é internamente contraditório e portanto irreal; de outro, mostrar que a realidade última consiste em uma comunidade infinita de substâncias espirituais — selves ou almas — ligadas entre si por relações de amor e percepção mútua. Esse idealismo pessoal o distingue de qualquer panteísmo ou teísmo tradicional: McTaggart era ateu declarado (rejeitava a existência de um Deus criador absoluto), mas sustentava que as almas são imortais e que a estrutura da realidade é essencialmente boa. Em Some Dogmas of Religion (1906), argumentou que a religião consiste em uma harmonia com o universo que independe da crença em um Deus pessoal.
Conceitos-chave
Série A e Série B (“The Unreality of Time”, Mind, 1908): a Série A ordena os eventos segundo as determinações de passado, presente e futuro — determinações que mudam continuamente e são, segundo McTaggart, indispensáveis para a mudança genuína. A Série B ordena os eventos pelas relações permanentes de antes e depois. McTaggart argumenta que a Série A é necessária para que haja tempo real, mas é internamente contraditória: todo evento deve ser simultaneamente passado, presente e futuro, e qualquer tentativa de resolver a contradição remete a uma Série A de ordem superior, gerando uma regressão infinita viciosa. Conclusão: o tempo é irreal.
Série C: a ordem real subjacente às aparências temporais. A Série C é uma ordenação permanente dos termos (análoga à Série B em sua imutabilidade), mas sem direção temporal intrínseca. As aparências de passado/presente/futuro são projeções subjetivas sobre essa estrutura atemporal. A distinção entre Série A, B e C continua sendo vocabulário canônico na metafísica do tempo.
Idealismo pessoal e a comunidade de selves: em The Nature of Existence, McTaggart sustenta que toda a realidade é composta de substâncias imateriais (pessoas ou selves), infinitamente divisíveis em partes que são elas mesmas selves. Essas substâncias percebem umas às outras e estão unidas por amor. Não há matéria, nem espaço físico real, nem Deus transcendente — apenas uma rede eterna de mentes que se contemplam reciprocamente.
Imortalidade da alma sem teísmo: McTaggart defendia a imortalidade pessoal — e até a pré-existência da alma — com base na estrutura da realidade que sua metafísica descrevia, sem nenhum apelo à revelação ou à existência de um criador. É um caso raro de defesa filosófica da imortalidade desvinculada de qualquer religião revelada.
Dialética hegeliana e sua reconstrução: em Studies in the Hegelian Dialectic (1896) e A Commentary on Hegel’s Logic (1910), McTaggart procurou reconstruir o método dialético de Hegel sobre bases lógicas mais rigorosas. Embora não aceitasse o sistema hegeliano na íntegra — em especial o monismo absoluto —, extraiu de Hegel a convicção de que a razão pode alcançar verdades metafísicas sobre a estrutura última da realidade.
Influenciado por
- Hegel — fonte primária do método dialético e do idealismo absoluto, revisado criticamente
- Francis Herbert Bradley — idealismo britânico, monismo e crítica da relação
- A tradição platônica de imortalidade da alma, relida sem suporte teológico
Influenciou
- Bertrand Russell — aluno em Cambridge; o jovem Russell passou por uma fase idealista em parte sob influência de McTaggart antes de romper com o idealismo
- G. E. Moore — também aluno em Cambridge; sua reviravolta realista foi em parte uma reação ao idealismo mctaggartiano
- C. D. Broad — aluno e editor póstumo do vol. II de The Nature of Existence; dedicou análises extensas à filosofia do tempo de McTaggart
- Todo o debate contemporâneo em metafísica do tempo: a distinção Série A / Série B estrutura as posições conhecidas como “A-theory” e “B-theory of time”
- Bergson — paralelismo de problemática sobre o tempo, embora com conclusões opostas
Obras
Studies in the Hegelian Dialectic (1896; 2.ª ed. 1922); Studies in Hegelian Cosmology (1901; 2.ª ed. 1918); Some Dogmas of Religion (1906); “The Unreality of Time” (Mind, 1908); A Commentary on Hegel’s Logic (1910); The Nature of Existence, vol. I (1921), vol. II (póstumo, 1927, ed. C. D. Broad); Philosophical Studies (1934, póstumo).
Ver também
Hegel Russell Bergson C. D. Broad G. E. Moore