Nascido em Moquegua, no Peru, em 1894, José Carlos Mariátegui venceu uma infância pobre e uma saúde frágil — que lhe custaria uma perna e, mais tarde, o confinaria à cama — para se tornar, como autodidata, o mais original pensador marxista da América Latina. Jornalista combativo, passou alguns anos na Itália, onde absorveu o marxismo e as ideias de Croce e Sorel; de volta ao Peru, fundou a influente revista Amauta e o Partido Socialista. Morreu em 1930, com apenas 35 anos, deixando uma obra breve e fulgurante.

Sua originalidade está em recusar a aplicação mecânica do marxismo europeu à realidade andina. O marxismo, para ele, é método — análise das condições materiais concretas —, não um catecismo a ser copiado. Daí sua tese mais célebre, exposta nos Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana (1928): “o problema do índio é o problema da terra”. A opressão indígena não tem raiz racial ou cultural, mas econômica — o latifúndio herdado da colônia —, e só uma reforma agrária radical poderia resolvê-la.

Mais ousado ainda, Mariátegui buscou no ayllu, a comunidade agrária pré-colombiana, uma base autóctone para o socialismo — propondo um “socialismo indo-americano” enraizado na tradição indígena, e não importado. Influenciado por Sorel, atribuía à revolução uma dimensão quase mítica e mobilizadora. Pioneiro do pensamento latino-americano autônomo, influenciou toda a esquerda do continente, de Che Guevara a Enrique Dussel e à teoria da colonialidade do poder.

Conceitos-chave

  • Marxismo sem dogma: o marxismo como método — análise das condições materiais concretas — e não como catecismo; cada sociedade exige análise própria
  • Problema do índio como problema da terra: a opressão indígena tem causa econômica (latifúndio colonial), não cultural ou racial — só a reforma agrária radical resolve
  • Socialismo indo-americano: o ayllu andino (forma comunitária pré-colombiana) como base autóctone para o socialismo — articulação entre marxismo e tradição indígena
  • Mito e política: influenciado por Sorel, vê o socialismo como força que precisa de impulso mítico, de “fé” mobilizadora — dimensão espiritual irredutível da revolução
  • Literatura e identidade: análise da literatura peruana em três fases (colonial, cosmopolita, nacional) — a literatura autêntica deve integrar a tradição indígena

Influenciado por

  • Marx e Engels — materialismo histórico
  • Georges Sorel — sindicalismo revolucionário e mito político
  • Benedetto Croce — historicismo
  • Lênin — imperialismo e organização
  • Henri Bergson — vitalismo

Influenciou

  • Esquerda peruana e Partido Comunista Peruano
  • Ernesto “Che” Guevara — marxismo guerrilheiro
  • Enrique Dussel — articulação marxismo/questão indígena
  • Aníbal Quijano — colonialidade do poder

Obras

La escena contemporánea (1925); Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana (1928); Defensa del marxismo (1930, póstumo). Revista Amauta (1926–1930).

Ver também

Filosofia Latino-americana Enrique Dussel Leopoldo Zea