María Lugones
María Lugones

María Lugones (Buenos Aires, Argentina, 26 de janeiro de 1944 — 14 de julho de 2020, Syracuse, Nova York) foi uma filósofa e ativista argentino-estadunidense, professora de Literatura Comparada e Estudos de Mulheres da Universidade de Binghamton. Sua trajetória intelectual entrelaça filosofia política, teoria feminista e pensamento decolonial latino-americano de maneira singular: em vez de aplicar categorias eurocêntricas à experiência das mulheres do Sul Global, Lugones propôs refundá-las a partir daquilo que a colonização destruiu e daquilo que a resistência das colonizadas preservou. Seu trabalho articula o feminismo de cor norte-americano — especialmente o de Gloria Anzaldúa — com a crítica decolonial de Aníbal Quijano, produzindo uma teoria em que raça e gênero não são variáveis separadas que se somam, mas dimensões fundidas numa única estrutura de poder.

A obra de Lugones é ao mesmo tempo analítica e militante. Em seus escritos mais conhecidos, ela argumenta que a biologia binária do sexo e a heterossexualidade normativa não são universais naturais, mas tecnologias coloniais impostas sobre populações que, antes da conquista, organizavam de modo distinto as relações entre corpos, trabalho e cosmologia. Essa tese radical a coloca em diálogo crítico tanto com o feminismo branco ocidental — que ela acusa de reproduzir o privilégio colonial ao universalizar experiências particulares — quanto com os estudos decoloniais masculinizados, que tendem a negligenciar a especificidade da opressão de gênero.

Conceitos-chave

  • Colonialidade do gênero (“Heterosexualism and the Colonial/Modern Gender System”, Hypatia, 2007; “Toward a Decolonial Feminism”, Hypatia, 2010): extensão e crítica do conceito de colonialidade do poder de Aníbal Quijano; Lugones argumenta que o sistema moderno/colonial de gênero impôs a divisão binária masculino/feminino e a heterossexualidade compulsória como instrumentos de domínio racial e econômico sobre os povos colonizados; antes dessa imposição, muitas culturas reconheciam categorias de gênero e sexualidade que não se reduzem ao par homem/mulher.
  • “World-travelling” (viajar entre mundos) (“Playfulness, ‘World’-Travelling, and Loving Perception”, Hypatia, 1987): a capacidade — frequentemente forçada sobre as mulheres de cor — de mover-se entre diferentes “mundos sociais”, isto é, diferentes sistemas de significado, norma e percepção; Lugones converte essa habilidade, vivida inicialmente como imposição, em método filosófico e ético de reconhecimento do outro.
  • Percepção amorosa (loving perception, 1987): oposta à “percepção arrogante” que reduz o outro às categorias do observador, a percepção amorosa implica ver o outro no seu próprio mundo, aceitando a ambiguidade e o deslocamento que isso exige; constitui a base ética do “world-travelling”.
  • Interseccionalidade como fusão: contra leituras aditivas que tratam raça, gênero e classe como eixos independentes cuja soma explica a opressão, Lugones insiste que esses eixos são fusionados — constituem-se mutuamente na estrutura colonial/moderna; separar analiticamente raça de gênero já é reproduzir a lógica colonial que fragmenta os corpos colonizados.
  • Resistência e subjetividade ativa (Pilgrimages/Peregrinajes, 2003): contra teorias que definem os sujeitos colonizados apenas como vítimas ou como ausências, Lugones destaca as práticas cotidianas de resistência — a “limen”, a criatividade nas margens — como formas de agência que escapam ao quadro hegemônico sem precisar negar a opressão.
  • Feminismo descolonial: projeto coletivo, não individual, de desmantelamento simultâneo das estruturas coloniais e do patriarcado; não basta “acrescentar mulheres” à análise decolonial, nem “acrescentar raça” ao feminismo — é necessário reconstruir ambas as agendas desde a experiência das mulheres colonizadas.

Influenciado por

  • Aníbal Quijano — colonialidade do poder e classificação racial/social
  • Gloria Anzaldúa — fronteiras, nepantla e feminismo chicano de cor
  • Frantz Fanon — fenomenologia colonial e racialização dos corpos
  • Enrique Dussel — filosofia da libertação e crítica ao eurocentrismo
  • O feminismo de cor norte-americano (This Bridge Called My Back, Anzaldúa e Moraga, 1981)

Influenciou

  • O feminismo descolonial latino-americano (Yuderkys Espinosa Miñoso, Rita Segato)
  • Os estudos de gênero e colonialidade no Sul Global
  • A teoria queer decolonial
  • O Grupo Modernidade/Colonialidade (Mignolo, Maldonado-Torres)
  • Pesquisadoras afro-feministas latino-americanas

Obras

“Playfulness, ‘World’-Travelling, and Loving Perception” (Hypatia, vol. 2, n.º 2, 1987) — seu ensaio seminal; Pilgrimages/Peregrinajes: Theorizing Coalition Against Multiple Oppressions (2003), coletânea que reúne seus textos fundamentais; “Heterosexualism and the Colonial/Modern Gender System” (Hypatia, vol. 22, n.º 1, 2007); “Toward a Decolonial Feminism” (Hypatia, vol. 25, n.º 4, 2010).

Ver também

Aníbal Quijano, Enrique Dussel, Frantz Fanon, Gayatri Spivak, Iris Marion Young