Marco Aurélio
Marco Aurélio

Marco Aurélio Antonino governou Roma de 161 a 180 d.C. e é lembrado como o último dos “cinco bons imperadores” e como o exemplo mais célebre da antiga ideia do rei-filósofo. Adotado na linha de sucessão por Antonino Pio, recebeu educação esmerada e converteu-se cedo ao estoicismo, sobretudo pela leitura de Epiteto, a quem foi apresentado por seu mestre Júnio Rústico. Seu reinado, longe de tranquilo, foi atravessado por guerras nas fronteiras do Danúbio, por revoltas e pela devastadora peste antonina — circunstâncias em que sua filosofia se mostrou menos doutrina e mais disciplina de sobrevivência interior.

As Meditações (Ta eis heautón, “para si mesmo”), escritas em grego e boa parte delas em campanha militar, não foram concebidas para publicação: são anotações íntimas, um diário de exercícios espirituais em que o imperador se exorta a viver segundo a razão. Não há nelas um sistema, mas a aplicação cotidiana de princípios estoicos à própria vida — o que faz da obra um dos documentos mais singulares da Antiguidade.

No centro está a herança de Epicteto: não são as coisas que nos perturbam, mas os juízos que fazemos sobre elas (Enquirídio, V). Está em nosso poder governar esses juízos, ainda que não os acontecimentos — distinção que liberta da angústia diante do que não controlamos. A consciência da morte (memento mori) e da transitoriedade de tudo torna-se disciplina: tudo passa, e cabe viver bem o instante presente, cumprindo o dever para com a comunidade humana. Cosmopolita, Marco Aurélio via cada homem como cidadão de um mesmo cosmo racional. Redescoberto na Modernidade, tornou-se referência da chamada filosofia como modo de vida (Pierre Hadot) e segue sendo uma das portas de entrada mais populares ao estoicismo.

Conceitos-chave

  • Filosofia como prática diária de autodomínio
  • “Os homens perturbam não pelas coisas, mas pelas opiniões sobre as coisas” (cf. Epiteto, Enquiridão, V)
  • Memento mori: consciência da mortalidade como disciplina
  • Cosmopolitismo e dever para com a humanidade
  • Providência racional do cosmos

Influenciado por

  • Epiteto — principal referência filosófica
  • Zenão de Cítio e Crisipo de Solos
  • Sêneca (indiretamente)

Influenciou

  • Pensamento político moderno sobre o governante justo
  • Movimento de filosofia como estilo de vida (Pierre Hadot)

Obras

Meditações (Ta eis heauton, ~12 livros) — trad. port. WMF Martins Fontes.

Ver também

Filosofia Helenística

Livros indicados:

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