Maimônides
Maimônides

Mošé ben Maimon — conhecido pelo acrônimo Rambam e, no Ocidente latino, como Maimônides — nasceu em Córdoba, na Al-Andalus, por volta de 1138, e é o maior filósofo judeu da Idade Média. Fugindo da perseguição almóada, sua família peregrinou pelo norte da África até se fixar no Egito, onde Maimônides se tornou médico de corte e líder espiritual da comunidade judaica do Cairo. Foi, ao mesmo tempo, jurista, talmudista, médico e filósofo, e morreu em 1204.

Como Avicena no Islã e, mais tarde, Tomás de Aquino no cristianismo, Maimônides empenhou-se na conciliação entre fé e razão — entre a filosofia de Aristóteles, que recebera pela tradição árabe, e a revelação da Torá. Sua obra filosófica capital, o Guia dos Perplexos (1190), dirige-se justamente àquele que, instruído na filosofia, se vê perplexo diante das aparentes contradições entre a razão e a Escritura; a solução proposta é a interpretação alegórica dos trechos bíblicos que atribuem a Deus traços humanos.

No centro de sua metafísica está a teologia negativa: a essência de Deus é tão radicalmente transcendente que nada de positivo se pode afirmar dela sem rebaixá-la a termos humanos. Só podemos dizer o que Deus não é. Maimônides também redigiu, na Mishné Torá, a mais influente sistematização de toda a lei judaica. Sua influência transbordou o judaísmo: foi lido e citado por Tomás de Aquino (como “Rabbi Moyses”) e estudado atentamente por Spinoza, que dele herdou impulsos tanto do racionalismo quanto da crítica bíblica.

Conceitos-chave

  • Teologia negativa (via negativa): não se pode predicar atributos positivos de Deus sem antropomorfizá-lo. Só podemos dizer o que Deus não é — Deus não é ignorante (ou seja, é sábio), não é fraco (é poderoso), etc. A essência divina é radicalmente incompreensível
  • Guia dos Perplexos (More Nevukhim, 1190): obra dirigida ao estudioso que conhece a filosofia e fica perplexo ante as aparentes contradições entre razão e Escritura; propõe interpretação alegórica dos textos bíblicos antropomórficos
  • Profecia: fenômeno natural (não sobrenatural para os outros profetas) — ocorre quando a imaginação e o intelecto do profeta atingem perfeição máxima e o intelecto agente ilumina o intelecto adquirido; Moisés é caso excepcional
  • Criação vs. eternidade do mundo: contra Aristóteles que defendia o mundo eterno; Maimônides argumenta que nem a criação nem a eternidade são demonstráveis filosoficamente — aceitamos a criação por revelação
  • Código da Lei Judaica (Mishné Torá): sistematização de toda a Halachá (lei rabínica) em linguagem clara — monumento jurídico-teológico
  • Ética das virtudes: segue Aristóteles — a virtude é meio-termo entre extremos; o fim humano é o aperfeiçoamento intelectual como imitação de Deus

Influenciado por

  • Aristóteles — via tradução árabe (Al-Farabi, Avicena)
  • Avicena — metafísica e teoria da profecia
  • Al-Farabi — filosofia política islâmica

Influenciou

  • Tomás de Aquino — citado extensamente como “Rabbi Moyses”; teologia negativa
  • Spinoza — crítica bíblica e racionalismo (leu Maimônides atentamente)
  • Escolástica cristã — transmissão do aristotelismo
  • Filosofia judaica posterior (Crescas, Albo)

Obras

Mishné Torá (1170–1180); Guia dos Perplexos (1190); Comentário à Mishná (1168); Epístola ao Iêmen (1172).

Ver também

Filosofia Medieval

Livros indicados:

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