Luce Irigaray (nascida em 3 de maio de 1930, na Bélgica) é uma filósofa, linguista e psicanalista belga-francesa, uma das principais vozes do chamado feminismo da diferença. Com doutorados em linguística e em filosofia, integrou o círculo lacaniano até a publicação de sua tese, Espéculo da Outra Mulher (1974), cuja crítica radical à psicanálise lhe custou a expulsão da École freudienne de Paris, de Jacques Lacan, e o posto de docente na Universidade de Vincennes.

O problema que a ocupa é o do lugar do feminino na linguagem e na filosofia ocidentais. Sua tese é que essa tradição é falocêntrica: pensa o sujeito, a razão e o desejo a partir de um modelo masculino tomado como neutro e universal, de modo que a mulher só aparece como “falta”, negativo ou espelho do homem — nunca em sua diferença própria. Reler os grandes textos (de Platão e Aristóteles a Freud) é, para ela, expor esse apagamento.

A partir daí, Irigaray propõe pensar a diferença sexual como questão filosófica fundamental e buscar uma linguagem e uma cultura que deem lugar ao feminino. Esse projeto suscitou um debate persistente: críticos a acusam de essencialismo — de fundar a diferença no corpo feminino —, ao que ela responde que se trata de uma estratégia para subverter a “lógica do mesmo”, não de uma afirmação de essência natural.

Conceitos-chave

  • Falocentrismo: a filosofia e a psicanálise ocidentais organizam-se em torno do masculino como norma; o feminino é definido apenas por privação (a “inveja do pênis” freudiana é o alvo paradigmático).
  • A “lógica do mesmo”: o pensamento ocidental reduz a alteridade ao idêntico; a mulher é o “outro do mesmo”, não uma diferença plena.
  • Diferença sexual (Ética da Diferença Sexual, 1984): a tarefa do tempo presente seria pensar a diferença entre os sexos como irredutível, sem hierarquia nem assimilação.
  • “Este sexo que não é um” (1977): o gozo feminino não se deixa reduzir ao modelo único e fálico; a imagem dos “dois lábios” sugere uma sexualidade plural e de autocontato.
  • Parler femme (“falar mulher”): a busca de uma enunciação que escape à neutralidade aparente — e masculina — da linguagem.

Influenciado por

  • Jacques Lacan — a psicanálise (depois rompida)
  • Sigmund Freud — alvo crítico central
  • Heidegger, Merleau Ponty e Lévinas — a diferença, o corpo e a alteridade

Influenciou

  • O feminismo da diferença e a “écriture féminine”
  • Os estudos de gênero e a filosofia feminista
  • Os debates sobre essencialismo e construtivismo

Obras

Espéculo da Outra Mulher (1974); Este Sexo Que Não É Um (1977); Ética da Diferença Sexual (1984); Eu, Tu, Nós (1990).

Ver também

Simone de Beauvoir, Judith Butler, Jacques Lacan