
Louis Althusser (16 de outubro de 1918, Birmendreïs, Argélia francesa — 22 de outubro de 1990, La Verrière) foi um filósofo marxista francês, principal nome do marxismo estrutural. Professor na École Normale Supérieure da rua d’Ulm por décadas, formou e influenciou uma geração inteira (Foucault, Derrida, Jacques Rancière, Étienne Balibar, Alain Badiou). Membro do Partido Comunista Francês desde 1948, empenhou-se em uma releitura rigorosa e “científica” de Marx, contra as leituras humanistas e historicistas então dominantes. Sua biografia foi marcada por grave doença mental: em 1980, num episódio psicótico, matou sua esposa, Hélène Rytmann, e foi declarado inimputável.
Conceitos-chave
- Corte epistemológico (coupure épistémologique, noção tomada de Bachelard): há uma ruptura entre o jovem Marx, ainda ideológico e humanista (próximo de Feuerbach), e o Marx maduro e científico, que a partir de A Ideologia Alemã (1845) inaugura uma nova ciência — a do modo de produção e da história.
- Anti-humanismo teórico: o marxismo não é um humanismo. A história é um “processo sem sujeito”; não é o Homem, essência abstrata, que faz a história, mas as relações e estruturas sociais. (Tese polêmica, que rendeu a Althusser a acusação de dissolver o agente.)
- Sobredeterminação (surdétermination, noção tomada de Freud): nenhuma contradição social é simples ou pura; toda contradição é sobredeterminada pelas demais instâncias. A revolução não estoura pela contradição econômica isolada, mas pela “fusão” de várias contradições.
- Causalidade estrutural e a “última instância”: a formação social é um todo estruturado com instâncias relativamente autônomas — econômica, política, ideológica. A economia é determinante “em última instância” — mas, como Althusser gosta de dizer, “a hora solitária da última instância nunca chega”.
- Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE, ensaio de 1970): além do Aparelho Repressivo de Estado (polícia, exército), o capitalismo se reproduz por Aparelhos Ideológicos (escola, igreja, família, mídia). A ideologia é a “representação da relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência” e “não tem história”.
- Interpelação: a ideologia “interpela os indivíduos como sujeitos”. A imagem é a do policial que grita “Ei, você aí!” — ao se virar, o indivíduo reconhece-se como sujeito e já está dentro da ideologia.
Crítica
Althusser foi acusado de funcionalismo (os AIE explicariam tudo pela reprodução do sistema, sem espaço para resistência) e de “stalinismo teórico” (E. P. Thompson, A Miséria da Teoria). Em sua obra tardia, esboçou um “materialismo aleatório” ou “materialismo do encontro”, revisando o cientificismo anterior.
Influenciado por
- Marx — o objeto de sua releitura “sintomal”
- Freud e Jacques Lacan — sobredeterminação e interpelação do sujeito
- Gaston Bachelard — o corte epistemológico
- Antonio Gramsci — a hegemonia e a sociedade civil (em diálogo crítico)
Influenciou
- Foucault, Derrida, Jacques Rancière, Étienne Balibar, Alain Badiou
- Nicos Poulantzas — a teoria marxista do Estado
- Stuart Hall e os Estudos Culturais — a teoria da ideologia
- O “marxismo analítico” e os debates contemporâneos sobre estrutura e agência
Obras
Por Marx (Pour Marx, 1965); Ler O Capital (Lire le Capital, 1965, com Balibar e outros); Lênin e a Filosofia (1969); “Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado” (1970); O Futuro Dura Muito Tempo (autobiografia póstuma, 1992).
Ver também
Marx, Antonio Gramsci, Jacques Lacan