Liev Chestov
Liev Chestov

Liev Chestov — nome literário de Yeguda Lev Shvartsman (Kiev, 5 de fevereiro de 1866 — Paris, 19 de novembro de 1938) — foi filósofo russo que se tornou uma das vozes mais radicais da crítica ao racionalismo filosófico europeu. Nascido numa família judaica de Kiev, estudou Direito e Matemática em Moscou antes de se dedicar inteiramente à filosofia. Após a Revolução Bolchevique, emigrou; em 1922 passou a lecionar filosofia russa na Universidade de Paris, onde permaneceu até a morte. Nesse exílio frutífero, amadureceu suas ideias mais originais e escreveu sua obra principal.

O problema central de Chestov é a tirania da razão sobre a existência humana. Toda a tradição filosófica desde os gregos — de Platão a Hegel, de Aristóteles a Kant — teria construído um edifício de necessidades, de verdades autoevidentes e de leis imutáveis que aprisionam o ser humano num determinismo disfarçado de liberdade. Contra esse edifício, Chestov ergue a reivindicação de uma liberdade radical ancorada na fé: não uma fé doutrinária, mas a experiência de um Deus vivo capaz de fazer que mesmo o passado não tenha sido — o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, e não o Deus dos filósofos. Esse contraste entre Atenas (a razão, a necessidade, a ciência) e Jerusalém (a fé, a contingência, o Deus bíblico) dá título à sua obra magna, publicada postumamente em 1938, e resume toda a sua visão filosófica.

Conceitos-chave

  • Atenas e Jerusalém — oposição fundamental entre duas formas de habitar o mundo: a razão filosófica, que busca necessidades eternas e leis universais (Atenas), e a fé bíblica, que vive da contingência, do milagre e da relação pessoal com o Deus vivo (Jerusalém). Para Chestov, a filosofia ocidental escolheu Atenas e traiu Jerusalém.
  • Revolta contra a necessidade — o filósofo autêntico não aceita as “verdades autoevidentes” como ponto de partida; rebela-se contra toda necessidade imposta pela razão ou pela natureza, afirmando que para Deus tudo é possível, inclusive que o passado que aconteceu possa “não ter acontecido”.
  • O salto para além da razão — seguindo o modelo de Kierkegaard, Chestov defende um salto (sprung) que abandona as certezas racionais em favor de uma fé que transgride a lógica; mas, diferentemente de Kierkegaard, ele ancora esse salto no Deus do Antigo Testamento e na tradição bíblica hebraica.
  • Dostoiévski e Nietzsche como mestres da tragédia — em A Filosofia da Tragédia (1903), Chestov lê Dostoiévski e Nietzsche não como romancistas ou moralistas, mas como pensadores do sofrimento e do desespero que chegaram, pelas vias da criação artística, a verdades que a filosofia sistemática é incapaz de expressar.
  • O Livro de Jó como paradigma filosófico — em Na Balança de Jó (1929), Chestov interpreta a revolta de Jó contra Deus como o modelo supremo da autêntica atitude filosófica: recusa de toda justificação racional do sofrimento e apelo direto ao Deus que está além de toda necessidade.
  • Irracionalismo existencial — a certeza vivida precede e supera a sistematização filosófica; o desespero, a angústia e o sofrimento pessoal são vias de acesso ao real que nenhuma epistemologia racional pode fornecer.

Influenciado por

  • Dostoiévski — o sofrimento como fonte de conhecimento; a revolta contra a teodiceia racional
  • Nietzsche — a crítica radical à moral e à razão sistemática; a “morte de Deus” como ponto de partida
  • Kierkegaard — o salto de fé, o indivíduo singular diante de Deus, a crítica ao sistema hegeliano
  • Tolstói — a busca de uma ética vivida além do convencionalismo moral (tema dos primeiros escritos)
  • Blaise Pascal — a oposição entre o Deus dos filósofos e o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó

Influenciou

  • Nikolai Berdiáev — diálogo permanente sobre liberdade, fé e filosofia existencial russa
  • Camus — analisado criticamente em O Mito de Sísifo (1942): Camus reconhece que Chestov descobriu o absurdo, mas o critica por cometer “suicídio filosófico” ao fugir para a fé religiosa em vez de permanecer no absurdo; Camus escreve explicitamente contra Chestov e Kierkegaard, que fariam um “salto” para Deus em vez de sustentarem a revolta lúcida
  • Gilles Deleuze — referência na discussão sobre imanência e transcendência
  • Benjamin Fondane — discípulo direto, poeta e filósofo romeno-francês
  • Emil Cioran — admirador confesso; a postura antirracional de Chestov ressoa em toda a obra de Cioran

Obras

O Bem no Ensinamento de Tolstói e Nietzsche (1899); A Filosofia da Tragédia: Dostoiévski e Nietzsche (1903); Apofeose do Desenraizamento (Apotheosis of Groundlessness, 1905); Potestas Clavium (1923); Na Balança de Jó (1929); Kierkegaard e a Filosofia Existencial (1933–1934); Atenas e Jerusalém (redigida 1930–1937, publicada postumamente, 1938).

Ver também

Nikolai Berdiáev, Kierkegaard, Camus, Nietzsche