
Antropólogo e filósofo francês; fundador do estruturalismo nas ciências humanas. Aplicou o modelo da linguística de Saussure à antropologia, transformando o estudo dos mitos, parentesco e culturas “primitivas”.
Nascido em Bruxelas em 1908 e falecido em Paris em 2009, Lévi-Strauss estudou filosofia e direito antes de se tornar professor no Brasil — lecionou na Universidade de São Paulo entre 1935 e 1939, período em que realizou trabalho de campo entre povos indígenas do Mato Grosso e da Amazônia. Essa experiência direta com sociedades ameríndias foi decisiva: em vez de confirmar o evolucionismo dominante, ela o levou a questionar radicalmente a hierarquia entre “pensamento primitivo” e “pensamento científico”. De volta à Europa e depois exilado em Nova York durante a Segunda Guerra Mundial, frequentou o linguista Roman Jakobson, cujo formalismo fonológico forneceu a Lévi-Strauss o instrumento metodológico central: a análise das oposições binárias como chave para decifrar sistemas culturais.
Sua contribuição mais duradoura foi demonstrar que os fenômenos culturais — mitos, ritos, sistemas de parentesco, culinária, arte — podem ser lidos como linguagens: sistemas de signos cujo sentido não está em cada elemento isolado, mas nas relações diferenciais entre eles. Com isso, deslocou a antropologia de uma disciplina descritiva e histórica para uma ciência estrutural das formas simbólicas. O impacto ultrapassou a etnologia: influenciou diretamente a psicanálise de Lacan, a historiografia de Foucault, a narratologia e a semiologia, e provocou o debate central da teoria francesa do século XX — a crise do estruturalismo e sua superação pelo pós-estruturalismo de Derrida e Deleuze.
Conceitos-chave
- Estruturalismo: por trás da diversidade dos fenômenos culturais há estruturas inconscientes universais do espírito humano — binárias, relacionais, transformacionais
- Mito: os mitos não são narrativas caóticas mas sistemas de oposições binárias (cru/cozido, natureza/cultura, alto/baixo) que resolvem contradições existenciais da sociedade
- Mitemas: as unidades mínimas de um mito (análogos aos fonemas na linguística); o sentido emerge das relações entre mitemas, não dos elementos isolados
- O Cru e o Cozido (1964): o cozido é natureza transformada por cultura — a culinária é um sistema simbólico universal que codifica a distinção natureza/cultura
- Pensamento selvagem (La Pensée sauvage, 1962): o pensamento das sociedades “primitivas” não é inferior — é uma ciência do concreto, do sensível, tão rigorosa quanto o pensamento científico moderno
- Bricolagem vs. engenharia: o bricoleur usa elementos à mão para novos fins; o engenheiro parte de conceitos abstratos — o mito é forma de bricolagem intelectual
- Parentesco e troca: as estruturas de parentesco (proibição do incesto, exogamia) são o fundamento de toda sociedade — a mulher como signo na troca entre grupos (crítica feminista depois)
Influenciado por
- Ferdinand de Saussure — linguística estrutural
- Marcel Mauss — antropologia do dom e da troca
- Marx — estruturas profundas sob a superfície dos fenômenos
- Freud — inconsciente e estrutura
Influenciou
- Foucault — episteme como estrutura inconsciente
- Derrida — desconstrução do estruturalismo
- Lacan — psicanálise estruturalista
- Semiologia e teoria da comunicação
- Narratologia (Greimas, Genette)
Obras
As Estruturas Elementares do Parentesco (1949); Tristes Trópicos (1955); Antropologia Estrutural (1958); O Pensamento Selvagem (1962); Mitológicas (4 vols., 1964–1971).
Ver também
Filosofia do Século XX
Livros indicados:
Filosofia e Semiótica: Lévi-Strauss, Foucault e Lacan
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Tristes trópicos
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Antropologia estrutural dois
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Antropologia estrutural
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O pensamento selvagem
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