
Kwame Nkrumah (21 de setembro de 1909 – 27 de abril de 1972) nasceu em Nkroful, na Costa do Ouro (atual Gana). Estudou nos EUA (Lincoln University e University of Pennsylvania) e no Reino Unido (London School of Economics), onde desenvolveu suas ideias pan-africanistas em contato com figuras como C.L.R. James e George Padmore. Retornou à Costa do Ouro em 1947, liderou o movimento de independência e tornou-se o primeiro presidente de Gana em 1957 — o primeiro país africano subsaariano a obter independência no período pós-guerra. Foi deposto por um golpe militar em 1966, enquanto estava em Pequim, a caminho de Hanói. Viveu o restante de sua vida no exílio, na Guiné-Conakri, onde morreu em 1972. Nkrumah é considerado um dos pais fundadores do pan-africanismo moderno e figura central da Organização da Unidade Africana (fundada em 1963).
Conceitos-chave
Pan-Africanismo: A ideia de que os povos africanos e da diáspora africana compartilham uma identidade e um destino comuns e devem unir-se politicamente para superar o colonialismo e o neocolonialismo. Nkrumah defendia a criação de um governo continental africano unificado, posição que o colocou em conflito com outros líderes africanos que preferiam a via do pan-africanismo interestatal graduado.
Neocolonialismo (Neo-Colonialism: The Last Stage of Imperialism, 1965): Nkrumah cunhou e sistematizou o conceito de neocolonialismo — a situação em que o Estado obtém formalmente a independência política, mas permanece economicamente subordinado aos interesses das antigas potências coloniais e das corporações multinacionais. O neocolonialismo é, para Nkrumah, a forma mais perigosa do imperialismo: atua sem a presença colonial visível, através de mecanismos econômicos, financeiros e culturais.
Consciencismo (Consciencism: Philosophy and Ideology for Decolonization and Development, 1964): A obra filosófica mais sistemática de Nkrumah. O “consciencismo” é uma filosofia que busca a síntese entre três elementos presentes na sociedade africana contemporânea: (1) a herança tradicional africana, de base comunalista e igualitária; (2) a herança islâmica, com seus valores de solidariedade e lei moral; (3) a herança europeia-cristã, com seu humanismo e algumas conquistas técnicas. A síntese não é ecletismo: é uma transformação dialética orientada para a recuperação do “fio” original africano — o comunalismo — que Nkrumah identifica com o socialismo.
Socialismo Africano: Para Nkrumah, o socialismo não é importado: as sociedades africanas tradicionais praticavam formas de posse coletiva da terra e organização solidária que constituem a base cultural para um socialismo africano moderno. Mas este socialismo deve ser científico (marxista em sua análise das forças produtivas) e não meramente sentimental.
Crítica ao “socialismo africano” de Senghor e Nyerere: Nkrumah critica as versões do socialismo africano que o reduzem a valores culturais tradicionais, sem análise das classes sociais e do imperialismo. Para Nkrumah, ignorar as classes é ingenuidade política que beneficia as burguesias nacionais e as potências neocoloniais.
Unidade Africana como condição do desenvolvimento: A fragmentação da África em múltiplos Estados pequenos e dependentes é resultado direto das fronteiras coloniais e do “dividir para dominar”. Sem unidade política continental, nenhum Estado africano pode industrializar-se, resistir ao imperialismo econômico ou exercer soberania real.
Influenciado por
- Marcus Garvey — pan-africanismo e orgulho negro
- W.E.B. Du Bois — dupla consciência, pan-africanismo
- C.L.R. James — marxismo caribeño, história da diáspora africana
- Marx e Lenin — análise do imperialismo e do capitalismo
- George Padmore — pan-africanismo socialista
Influenciou
- Movimentos de libertação africana (Angola, Moçambique, Zimbabwe)
- Organização da Unidade Africana (OUA, 1963) / União Africana (2002)
- Conceito de neocolonialismo (adotado amplamente nos estudos pós-coloniais)
- Amílcar Cabral e Thomas Sankara
- Debate sobre o desenvolvimento africano contemporâneo
Obras
Towards Colonial Freedom (1945, escrito em 1942); Ghana: The Autobiography of Kwame Nkrumah (1957); I Speak of Freedom (1961); Africa Must Unite (1963); Consciencism: Philosophy and Ideology for Decolonization and Development (1964); Neo-Colonialism: The Last Stage of Imperialism (1965); Class Struggle in Africa (1970).
Ver também
Filosofia Africana Filosofia Política