
Filósofo austríaco-britânico. Propôs o falsificacionismo como critério de demarcação científica e defendeu a sociedade aberta contra o totalitarismo. Crítico agudo do marxismo e do historicismo.
Nascido em Viena em 1902, Popper formou-se em contato com o Círculo de Viena — o grupo de filósofos e cientistas que buscava fundar o conhecimento em bases estritamente verificacionistas. Em vez de aderir ao verificacionismo, porém, Popper inverteu a questão: o problema central da epistemologia não é como confirmamos teorias, mas como as distinguimos de pseudo-ciências. Sua resposta, o falsificacionismo, estabeleceu que o marco da cientificidade é a refutabilidade: uma teoria é científica se — e somente se — é possível conceber um experimento ou observação capaz de derrubá-la. Essa virada metodológica, apresentada em A Lógica da Descoberta Científica (1934), redefiniu os fundamentos da filosofia da ciência do século XX.
O contexto político europeu da década de 1930 e 1940 — ascensão do nazismo, expansão do stalinismo — levou Popper a estender seu racionalismo crítico ao campo social. Em A Sociedade Aberta e seus Inimigos (1945), escrito no exílio na Nova Zelândia durante a Segunda Guerra Mundial, ele argumentou que as grandes ideologias totalitárias partilhavam uma raiz filosófica comum: o historicismo, a crença em leis necessárias que governam o curso da história. Contra isso, Popper defendeu uma engenharia social fragmentada (piecemeal social engineering) — reformas graduais, testáveis e reversíveis, em lugar de utopias revolucionárias. Sua filosofia política influenciou gerações de liberais e democratas, e continua referência central nos debates sobre ciência, democracia e liberdade.
Conceitos-chave
- Falsificabilidade (Lógica da Descoberta Científica, 1934): uma teoria científica não é aquela que pode ser verificada (indução — problema de Hume), mas a que pode ser falsificada — que admite a possibilidade de ser refutada por experimentos. Psicanálise e marxismo não são ciências: são imunes à refutação
- Problema da indução (solução assimétrica): nenhum número de observações confirma uma lei universal; um único contra-exemplo a falsifica. Ciência progride pela sobrevivência das teorias mais audazes ao escrutínio severo
- Racionalismo crítico: a razão avança por conjecturas ousadas e refutações rigorosas — não por acumulação indutiva segura
- Epistemologia evolucionista: o crescimento do conhecimento é análogo à evolução biológica — variações (conjecturas) eliminadas por seleção (refutação)
- Sociedade Aberta (A Sociedade Aberta e seus Inimigos, 1945): sociedades que permitem crítica, reforma e mudança pacífica das instituições; crítica a Platão, Hegel e Marx como “inimigos” — historicismos que acreditam em leis inevitáveis da história e justificam autoritarismo
- Historicismo: a crença de que existem leis históricas que permitem prever o futuro — Popper argumenta que é uma falácia perigosa; o futuro é aberto
Influenciado por
- Kant — limites do conhecimento e papel ativo do sujeito
- Hume — problema da indução (ponto de partida)
- Einstein — ciência como ousadia conjectural refutável
Influenciou
- Filosofia da ciência contemporânea (Lakatos, Feyerabend — discípulos e críticos)
- Thomas Kuhn (debate sobre progresso científico)
- Liberalismo político contemporâneo
- George Soros — aplicou a “sociedade aberta” como projeto político e filantrópico
Obras
A Lógica da Descoberta Científica (1934); A Miséria do Historicismo (1957); A Sociedade Aberta e seus Inimigos (1945); Conjecturas e Refutações (1963); Conhecimento Objetivo (1972).
Ver também
Filosofia do Século XX
Livros indicados:
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