Julia Kristeva
Julia Kristeva

Julia Kristeva (nascida em 24 de junho de 1941, em Sliven, Bulgária) é uma filósofa, psicanalista, linguista, semioticista e romancista búlgaro-francesa. Chegou a Paris em 1965 com uma bolsa de doutorado e logo se integrou ao grupo da revista Tel Quel, epicentro da vanguarda intelectual francesa. Tornou-se professora na Universidade de Paris VII e psicanalista em exercício. Sua obra atravessa a linguística, a teoria literária, a psicanálise e a filosofia, com forte influência de Bakhtin, de Saussure e de Lacan.

O problema que a orienta é o dos limites da própria linguagem: o que, no sentido, escapa à ordem do signo e da sintaxe? Contra um estruturalismo que tratava a língua como sistema fechado, Kristeva procura o que nela é corpo, pulsão e ritmo — aquilo que a desestabiliza por dentro. Daí sua atenção à linguagem poética, ao texto de vanguarda e às experiências-limite do sujeito.

Em chave psicanalítica, desloca o foco do significante puro para o sujeito em processo, atravessado por forças que precedem e excedem a consciência. Sua relação com o feminismo é ambivalente: associada ao chamado “feminismo francês”, recusou o essencialismo e o rótulo, propondo (em “O Tempo das Mulheres”, 1979) uma leitura em três gerações do movimento.

Conceitos-chave

  • Intertextualidade: termo que cunhou ao introduzir Mikhail Bakhtin no Ocidente — todo texto é um “mosaico de citações”, absorção e transformação de outros textos; não há texto isolado.
  • Semiótico e simbólico (A Revolução da Linguagem Poética, 1974): o semiótico (le sémiotique) é a dimensão pré-verbal, pulsional e rítmica, ligada ao corpo e ao materno (a chora semiótica, termo tomado do Timeu de Platão); o simbólico é a ordem da sintaxe, da lei e do signo. A linguagem poética faz o semiótico irromper no simbólico.
  • Abjeção (Poderes do Horror, 1980): o abjeto é o que se expele e repugna (o cadáver, os fluidos do corpo) e ameaça a fronteira entre o eu e o outro — nem objeto nem sujeito, mas o que precisa ser rejeitado para que o eu se constitua.
  • O estrangeiro (Estrangeiros para Nós Mesmos, 1988): a estranheza do outro remete à estranheza interna do inconsciente — “somos estrangeiros para nós mesmos”.

Influenciado por

  • Mikhail Bakhtin — o dialogismo, base da intertextualidade
  • Roland Barthes — mentor em Paris
  • Jacques Lacan — a ordem simbólica e o sujeito dividido
  • Sigmund Freud e Hegel — a psicanálise e a dialética

Influenciou

  • A teoria literária e a crítica do texto
  • O feminismo dito “francês” e os estudos de gênero
  • As teorias do trauma, do afeto e da abjeção (estética, cinema)

Obras

Semiótica (1969); A Revolução da Linguagem Poética (1974); Poderes do Horror (1980); Histórias de Amor (1983); Estrangeiros para Nós Mesmos (1988).

Ver também

Roland Barthes, Jacques Lacan, Mikhail Bakhtin