Judith Jarvis Thomson
Judith Jarvis Thomson

Judith Jarvis Thomson (1929–2020) foi professora do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e uma das vozes mais rigorosas da ética analítica norte-americana da segunda metade do século XX. Seu trabalho se caracteriza pela análise minuciosa de casos concretos e pelo emprego de experimentos mentais como instrumentos de teste para princípios morais gerais. Formada na Columbia University e em Cambridge (UK), dedicou décadas ao exame sistemático de conceitos como direitos, permissibilidade moral, causalidade e responsabilidade — com atenção especial às situações em que intuições fortes entram em conflito com teorias normativas coerentes.

O percurso de Thomson pode ser lido em torno de dois grandes polos. O primeiro é o debate sobre o aborto: em “A Defense of Abortion” (1971), ela propôs um argumento radicalmente diferente da discussão usual, concedendo arguendo que o feto é uma pessoa desde a concepção e sustentando que mesmo assim o aborto pode ser moralmente permissível em muitos casos, com base em direitos da gestante sobre seu próprio corpo. O segundo polo é a ética das ações prejudiciais: junto com Philippa Foot, Thomson tornou o “problema do bonde” um instrumento canônico da filosofia moral, desenvolvendo-o de forma autônoma a partir de 1976 e revisando suas próprias conclusões em artigo tardio. Em suas últimas décadas, voltou-se à metaética e à teoria do valor em obras como Goodness and Advice (2001).

Conceitos-chave

  • Argumento do violinista (“A Defense of Abortion”, 1971): Thomson imagina uma mulher acordada conectada a um violinista famoso e doente que depende de seu sistema circulatório. A conclusão é que mesmo que o violinista tenha direito à vida, a mulher não é obrigada a permanecer conectada — pois o direito à vida não inclui o direito de usar o corpo alheio. O argumento é deliberadamente agnóstico quanto ao estatuto moral do feto: concede-lhe personalidade plena para mostrar que o direito ao aborto pode ser sustentado mesmo assim.
  • Problema do bonde (trolley problem): em “Killing, Letting Die, and the Trolley Problem” (1976) e em “The Trolley Problem” (1985), Thomson desenvolveu e sistematizou o experimento mental introduzido por Philippa Foot em 1967, explorando as distinções morais entre desviar um bonde matando um para salvar cinco e empurrar alguém de uma ponte para o mesmo fim. O contraste entre os dois cenários tornou-se ponto de partida para toda a literatura subsequente sobre obrigações negativas e positivas.
  • Matar versus deixar morrer: Thomson analisou a distinção entre causar ativamente um dano e deixar de evitá-lo, questionando se há sempre uma diferença moral relevante entre as duas situações e em que ela consiste.
  • Revisão em “Turning the Trolley” (2008): em artigo tardio, Thomson mudou de posição e passou a sustentar que desviar o bonde — fazendo o trolley atropelar uma pessoa para salvar cinco — também não é moralmente permissível, por constituir uma violação de direito equiparável à da variante da ponte. Essa reviravolta demonstra a disposição rara de uma filósofa para rever publicamente suas teses cardinais.
  • Realismo moral e teoria do valor: em Goodness and Advice (2001), Thomson rejeitou concepções subjetivistas da bondade e explorou a estrutura semântica e normativa dos predicados avaliativos, defendendo uma forma de realismo moral mínimo.

Influenciado por

  • Philippa Foot — introduziu o problema do bonde em 1967; Thomson o retomou e ampliou sistematicamente
  • H.L.A. Hart — teoria dos direitos e obrigações legais e morais
  • Judith Jarvis Thomson responde implicitamente à tradição utilitarista de John Stuart Mill ao privilegiar direitos individuais sobre maximização do bem agregado

Influenciou

  • Frances Kamm — desenvolveu a ética de princípios (“principlism”) e os experimentos mentais sobre dano e benefício a partir de Thomson
  • Joshua Greene — debate sobre neurociência moral e o problema do bonde parte diretamente dos cenários formulados por Thomson
  • O debate filosófico e jurídico sobre o aborto, em especial a literatura sobre direitos reprodutivos e autonomia corporal
  • A ética aplicada em geral: a metodologia de Thomson — testar princípios com casos-limite — tornou-se padrão no ensino e na pesquisa de ética normativa

Obras

  • “A Defense of Abortion” (1971), in Philosophy & Public Affairs 1(1): 47–66 — o artigo mais citado do debate sobre o aborto na filosofia analítica
  • Acts and Other Events (1977) — teoria da ação, causalidade e individuação de eventos
  • Rights, Restitution, and Risk: Essays in Moral Theory (1986) — coletânea de ensaios sobre direitos e responsabilidade
  • “The Trolley Problem” (1985), in The Yale Law Journal 94(6): 1395–1415
  • The Realm of Rights (1990) — tratamento sistemático da teoria dos direitos
  • Moral Relativism and Moral Objectivity (1996) — coautoria com Gilbert Harman; debate entre relativismo e objetivismo moral
  • Goodness and Advice (2001) — metaética e teoria do valor
  • “Turning the Trolley” (2008), in Philosophy & Public Affairs 36(4): 359–374 — revisão de suas posições sobre o problema do bonde

Ver também

Philippa Foot, Frances Kamm, Joshua Greene, H.L.A. Hart, Bernard Williams