
Joshua Greene (n. 1974) é professor de psicologia e diretor do Laboratório de Cognição Moral (Moral Cognition Lab) da Universidade de Harvard. Sua obra situa-se na confluência da filosofia moral, da psicologia experimental e das neurociências cognitivas, e representa um dos esforços mais influentes da virada empírica na ética contemporânea. Greene não se limita a descrever como as pessoas raciocinam sobre questões morais: usa esses dados para defender uma tese normativa explícita — que o utilitarismo, ou mais precisamente o consequencialismo profundo (“deep pragmatic utilitarianism”), é a teoria moral mais justificada para arbitrar conflitos entre grupos com sistemas de valores distintos.
A pergunta central que estrutura sua pesquisa é: por que pessoas razoáveis chegam a veredictos morais opostos diante dos mesmos fatos? Sua resposta recorre à teoria do processo dual: a mente moral opera por meio de dois sistemas que competem entre si. O primeiro, rápido, automático e afetivo, produz respostas intuitivas — em particular a repulsa a causar dano físico direto a uma pessoa. O segundo, lento e deliberativo, pesa consequências e aplica raciocínio instrumental. A tese de Greene, apoiada em estudos de neuroimagem funcional (fMRI) realizados com dilemas morais, é que as intuições deontológicas características — como a que proíbe empurrar alguém sobre os trilhos para salvar cinco vidas — são em grande medida respostas afetivas evolutivamente moldadas para contextos de interação pessoal e próxima, sem autoridade epistêmica privilegiada em dilemas abstratos de larga escala. Esse argumento de “debunking” genético é, contudo, objeto de crítica filosófica séria: autores como Selim Berker e Frances Kamm sustentam que a explicação causal de uma intuição não elimina sua força justificadora, e que Greene comete uma falácia ao concluir normativamente a partir de dados descritivos.
Conceitos-chave
- Teoria do processo dual (dual-process theory) — a cognição moral envolve dois sistemas: o Sistema 1, rápido e emocional, que gera intuições automáticas; e o Sistema 2, lento e deliberativo, que realiza cálculo de consequências. A tensão entre eles explica os conflitos morais sistemáticos observados experimentalmente.
- Dilemas “pessoais” vs. “impessoais” — nos experimentos de Greene, dilemas que exigem contato físico direto com a vítima (como o “footbridge case”, a variante da passarela do problema do bonde) ativam o sistema emocional com maior intensidade do que dilemas impessoais (como a variante da alavanca), gerando padrões de resposta distintos mensuráveis por fMRI.
- Argumento de debunking das intuições deontológicas — a origem evolutiva e afetiva de certas intuições (e.g., a proibição de matar diretamente) não lhes confere autoridade moral quando aplicadas fora do contexto para o qual foram selecionadas; não se trata de provar que a deontologia é falsa, mas de retirar-lhe a presunção de confiabilidade em determinados casos.
- Consequencialismo profundo (deep pragmatic utilitarianism) — Greene defende, em Moral Tribes (2013), que o utilitarismo funciona como uma “metamoral” para resolver conflitos entre grupos, pois fornece uma moeda comum — o bem-estar — que transcende sistemas de valores paroquiais.
- Neuroética moral experimental — o uso de neuroimagem como ferramenta para investigar as bases cognitivas e afetivas do julgamento moral, contribuindo para a compreensão empírica da ética sem postular uma “faculdade moral” unitária.
Influenciado por
- Peter Singer — utilitarismo e ética baseada em consequências e bem-estar
- John Stuart Mill — tradição consequencialista clássica
- David Hume — papel das emoções no julgamento moral
- Daniel Kahneman — teoria do processo dual aplicada à cognição em geral
- Judith Jarvis Thomson — formulação filosófica dos dilemas do bonde
Influenciou
- Psicologia moral experimental (Jonathan Haidt, Fiery Cushman)
- Neuroética e bioética aplicada
- Debates contemporâneos sobre a validade das intuições morais em filosofia analítica
- Pesquisadores que questionam o papel das emoções na deliberação moral
Obras
- “An fMRI Investigation of Emotional Engagement in Moral Judgment” (artigo em Science, 2001) — estudo fundador sobre neuroimagem e dilemas morais
- “The Secret Joke of Kant’s Soul” (capítulo em Moral Psychology, ed. Sinnott-Armstrong, 2008) — versão expandida da tese do processo dual aplicada à deontologia
- Moral Tribes: Emotion, Reason, and the Gap Between Us and Them (Penguin Press, 2013) — obra de síntese que apresenta o consequencialismo profundo como metamoral
Ver também
Philippa Foot, Judith Jarvis Thomson, Peter Singer, Bernard Williams