
John Langshaw Austin (26 de março de 1911, Lancaster — 8 de fevereiro de 1960, Oxford) foi um filósofo britânico, figura central da filosofia da linguagem ordinária de Oxford. Catedrático de filosofia moral (White’s Professor), exerceu durante a Segunda Guerra um papel destacado na inteligência militar britânica. Publicou pouco em vida; suas obras decisivas são póstumas, reconstruídas a partir de conferências e papéis. Seu estilo era paciente, antissistemático e atento às minúcias: para Austin, “nosso estoque comum de palavras incorpora todas as distinções que os homens acharam dignas de traçar” ao longo de muitas gerações — e a filosofia deve começar por examiná-las.
Conceitos-chave
- Performativos e constativos (Quando Dizer é Fazer, 1962, baseado nas conferências William James de 1955): nem todo enunciado descreve o mundo. Os constativos afirmam algo, e podem ser verdadeiros ou falsos; os performativos não descrevem — realizam uma ação ao serem ditos: “prometo…”, “batizo este navio…”, “aceito” (no casamento). Performativos não são verdadeiros nem falsos, mas felizes ou infelizes, conforme satisfaçam as condições de felicidade (a pessoa certa, o procedimento adequado, a sinceridade).
- A teoria dos atos de fala: Austin acaba por dissolver a própria distinção e generaliza — todo dizer é um fazer. Todo enunciado realiza simultaneamente três atos: o ato locucionário (dizer algo dotado de sentido e referência), o ato ilocucionário (o que se faz ao dizer: prometer, advertir, ordenar — a força ilocucionária) e o ato perlocucionário (os efeitos produzidos por dizer: convencer, assustar, consolar).
- Crítica do sense-data (Sentido e Percepção, 1962, póstumo): contra a tese de que percebemos diretamente “dados sensoriais”, e não coisas materiais (alvo: A. J. Ayer), Austin mostra que o argumento se apoia em um mau uso de palavras ordinárias como “parece”, “aparenta” e “ilusão”.
- A “fenomenologia linguística” (“Em Defesa das Desculpas”, 1956): examinar as distinções finas que a linguagem cotidiana traça — por exemplo, fazer algo “por engano” versus “por acidente” — é um guia para os próprios fenômenos, não mero estudo de palavras.
- “Como você sabe?” (“Other Minds”, 1946): dizer “eu sei” não é relatar um estado mental privado, mas algo mais próximo de dar a palavra — empenhar a própria autoridade perante os outros, como em uma promessa.
Influenciado por
- Wittgenstein — a atenção ao uso, embora Austin trabalhasse de modo independente
- G. E. Moore — o senso comum e a análise cuidadosa
- A tradição realista e analítica de Oxford
Influenciou
- Searle — a sistematização da teoria dos atos de fala (Atos de Fala, 1969)
- Paul Grice — a teoria das implicaturas e da comunicação
- Derrida — a discussão sobre a iterabilidade do performativo (debate Searle–Derrida)
- Judith Butler — a noção de performatividade do gênero (via Austin e Derrida)
Obras
Quando Dizer é Fazer (How to Do Things with Words, 1962, póstumo); Sentido e Percepção (Sense and Sensibilia, 1962, póstumo); Philosophical Papers (1961), que reúne ensaios como “Em Defesa das Desculpas”, “Other Minds” e “Verdade”.
Ver também
Wittgenstein, Searle, Derrida