Jacques Maritain
Jacques Maritain

Jacques Maritain nasceu em Paris em 18 de novembro de 1882 e morreu em Toulouse em 28 de abril de 1973. Educado em ambiente protestante liberal e republicano, estudou na Sorbonne, onde conheceu Raïssa Oumançoff, com quem se casou, e frequentou as aulas de Bergson no Collège de France; por algum tempo estudou também biologia na Alemanha, com Hans Driesch. Em 1906, sob a influência de Léon Bloy, converteu-se ao catolicismo e, na sequência, dedicou-se ao estudo de Tomás de Aquino, cuja filosofia passou a defender como “filosofia perene” capaz de dialogar com a modernidade. Lecionou no Institut Catholique de Paris, ensinou depois nos Estados Unidos e no Canadá, foi embaixador da França junto à Santa Sé (1945–1948) e professor em Princeton. Nos últimos anos viveu em Toulouse junto aos Irmãozinhos de Jesus, comunidade à qual se uniu em 1970.

Nos anos 1920, Maritain esteve próximo da Action Française, de Charles Maurras; a condenação do movimento por Roma, em 1926, levou-o a romper com ele e a reorientar seu pensamento político rumo à defesa da democracia e da pessoa humana.

Conceitos-chave

  • Distinguir para unir — princípio metodológico de Os Graus do Saber (Distinguer pour unir ou Les degrés du savoir, 1932): as formas de conhecimento (ciência empírico-matemática, filosofia da natureza, metafísica, teologia, experiência mística) têm objetos e métodos próprios, mas se articulam numa hierarquia sem se confundir.
  • Humanismo integral — projeto exposto em Humanisme intégral (1936) de uma ordem temporal plural, democrática e inspirada, mas não imposta, pelo cristianismo, em oposição tanto ao humanismo antropocêntrico moderno quanto ao regime de cristandade medieval.
  • Pessoa e bem comum — distinção de inspiração tomista entre indivíduo (aspecto material, parte da sociedade) e pessoa (dimensão espiritual, ordenada a fins que transcendem o Estado), desenvolvida em A Pessoa e o Bem Comum (1947).
  • Lei natural e direitos humanos — em Os Direitos do Homem e a Lei Natural (1942) e em O Homem e o Estado (Man and the State, 1951), fundamenta os direitos humanos na lei natural, sustentando que é possível um acordo prático sobre direitos entre pessoas que divergem quanto às justificações teóricas.
  • Intuição criadora — em Art et scolastique (1920) e Creative Intuition in Art and Poetry (1953), reflexão tomista sobre a arte como virtude do intelecto prático e sobre a experiência poética.

Sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos

É comum encontrar Maritain descrito como “autor” da Declaração de 1948; essa atribuição é exagerada. A redação da Declaração coube à Comissão de Direitos Humanos da ONU, e Maritain não participou diretamente dela. Sua contribuição está no contexto da UNESCO: participou da conferência geral de 1947 na Cidade do México e escreveu a introdução do volume coletivo da UNESCO sobre os fundamentos filosóficos dos direitos humanos (1949), onde formulou a ideia do acordo prático sem acordo teórico. O grau de sua influência sobre o texto final é objeto de debate entre os comentadores.

Influenciado por

  • Tomás de Aquino e os comentadores tomistas, em especial João de São Tomás
  • Henri Bergson, cujas aulas frequentou, embora tenha criticado depois aspectos de sua filosofia
  • Léon Bloy e Charles Péguy, pela experiência religiosa e literária
  • Humbert Clérissac, dominicano e seu diretor espiritual

Influenciou

  • O neotomismo francês e norte-americano, com Étienne Gilson como interlocutor e, em certas questões, divergente
  • O personalismo de Emmanuel Mounier, próximo em vários temas, ainda que com distinções
  • A doutrina social católica e a tradição da democracia cristã europeia e latino-americana
  • Pela mensagem aos “homens do pensamento e da ciência”, entregue ao final do Concílio Vaticano II (1965), seu nome ficou associado ao diálogo da Igreja com a cultura moderna

Obras

Art et scolastique (1920); Trois réformateurs (1925); Distinguer pour unir ou Les degrés du savoir (1932); Humanisme intégral (1936); Les droits de l’homme et la loi naturelle (1942); La personne et le bien commun (1947); Man and the State (1951); Creative Intuition in Art and Poetry (1953); Le paysan de la Garonne (1966).

Ver também

Antonin Sertillanges, Joseph Maréchal, Étienne Gilson, Emmanuel Mounier, Gabriel Marcel, Edith Stein