Jacques Lacan
Jacques Lacan

Jacques Lacan (13 de abril de 1901, Paris — 9 de setembro de 1981, Paris) foi um psicanalista e psiquiatra francês, a figura mais influente da psicanálise depois de Freud e um elo decisivo entre a psicanálise e o estruturalismo. Sob a bandeira do “retorno a Freud”, propôs reler a descoberta freudiana à luz da linguística de Ferdinand de Saussure e da antropologia de Lévi Strauss, depurando-a do biologismo e do psicologismo do ego. Seu Seminário, ministrado a partir de 1953, e os Escritos (1966) tornaram-se referência incontornável — e notoriamente difícil. Rompido com a Associação Psicanalítica Internacional em 1963, fundou no ano seguinte a École freudienne de Paris, que ele próprio dissolveria em 1980.

Conceitos-chave

  • O estágio do espelho (1936, reformulado em 1949): entre os 6 e os 18 meses, a criança se identifica jubilosamente com sua imagem refletida, antecipando uma unidade corporal que ainda não possui. O Eu (moi) nasce assim de uma identificação alienante com uma imagem exterior — o sujeito é, desde a origem, dividido.
  • O inconsciente estruturado como uma linguagem: a tese mais célebre de Lacan. O inconsciente não é um reservatório de instintos, mas opera segundo leis de significante. Reinterpretando Freud com Saussure e Jakobson, Lacan lê a condensação como metáfora e o deslocamento como metonímia.
  • Primazia do significante: Lacan inverte o signo saussuriano e afirma que o significante “desliza” sobre o significado, separado dele por uma barra. O sentido nunca se fixa de todo; o sujeito é “representado por um significante para outro significante”.
  • Os três registros: Imaginário, Simbólico e Real. O Imaginário é a ordem das imagens e identificações; o Simbólico é a ordem da linguagem, da lei e do grande Outro; o Real é o que resiste à simbolização, o impossível de dizer. Os três se enlaçam (Lacan os pensará como um nó borromeano).
  • O Nome-do-Pai e o desejo: a entrada na ordem simbólica passa pela função paterna (o Nome-do-Pai), que instaura a lei e a interdição. “O desejo do homem é o desejo do Outro”: desejamos a partir do e em direção ao Outro. O objeto pequeno a (objet petit a) é a causa sempre faltante do desejo.

Crítica e controvérsia

A obra de Lacan é alvo de objeções persistentes: a obscuridade deliberada do estilo; o uso de matemas, topologia e nós (atacado por Alan Sokal e Jean Bricmont como apropriação indevida da matemática); e as sessões de duração variável, que motivaram sua ruptura institucional. Mesmo assim, sua influência sobre a filosofia continental foi imensa.

Influenciado por

  • Freud — a fonte a que Lacan diz “retornar”
  • Ferdinand de Saussure e Roman Jakobson — significante, metáfora e metonímia
  • Lévi Strauss — a eficácia simbólica e a ordem do Simbólico
  • Hegel (lido por Alexandre Kojève) — desejo, reconhecimento, o Outro

Influenciou

  • Louis Althusser — a teoria da interpelação ideológica
  • Slavoj Žižek e a renovação contemporânea da teoria crítica
  • Julia Kristeva e Luce Irigaray (em diálogo e crítica)
  • A teoria do cinema, a teoria política (Laclau e Mouffe) e a teoria literária

Obras

Escritos (Écrits, 1966); O Seminário (publicado em volumes a partir dos anos 1970, esp. o Livro XI, Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise, 1973). A tese de doutorado Da Psicose Paranoica em suas Relações com a Personalidade (1932) antecede a guinada estruturalista.

Ver também

Freud, Ferdinand de Saussure, Louis Althusser