
Jacques Ellul nasceu em Bordeaux, na França, em 6 de janeiro de 1912, e morreu em Pessac, na região metropolitana de Bordeaux, em 19 de maio de 1994. Formado em direito, história e sociologia, foi durante décadas professor de História e Sociologia das Instituições na Faculdade de Direito e Ciências Econômicas da Universidade de Bordeaux. Em 1932, viveu o que descreveu como uma conversão religiosa “brutal e súbita”, episódio que o levou a se filiar à Igreja Reformada da França e a manter, ao longo de toda a vida, uma obra dividida entre dois eixos que ele insistia deverem ser lidos dialeticamente, um à luz do outro: a análise sociológica da técnica moderna e a reflexão teológica cristã. Durante a Segunda Guerra Mundial, participou da Resistência francesa; em 2001, sete anos após sua morte, foi reconhecido pelo instituto Yad Vashem como “Justo entre as Nações” por ter ajudado judeus a escapar da perseguição nazista.
A obra pela qual Ellul é mais conhecido é La Technique ou l’enjeu du siècle (1954; trad. inglesa The Technological Society, 1964), na qual cunhou o conceito central de sua sociologia: a técnica (la technique) — não os artefatos ou máquinas isoladas, mas “a totalidade dos métodos racionalmente alcançados e dotados de eficiência absoluta em cada campo da atividade humana”. Para Ellul, a técnica moderna tornou-se um sistema autônomo, que se autoalimenta e se impõe a todas as esferas da vida — economia, política, educação, lazer — segundo sua própria lógica de eficiência, independentemente dos fins morais que os seres humanos possam desejar-lhe impor: o ser humano não domina mais a técnica, mas é antes moldado e absorvido por ela. Em Le Système technicien (1977; trad. inglesa The Technological System, 1980), Ellul aprofundou essa tese, descrevendo a técnica como um sistema fechado que integra e subordina todos os subsistemas técnicos particulares. Em Propagandes (1962), estendeu a análise à comunicação de massa, mostrando como a propaganda moderna funciona como instrumento de adaptação psicológica do indivíduo à sociedade técnica, produzindo uma espécie de “hipnose” que neutraliza a escolha genuína.
Conceitos-chave
- Técnica (la technique) — não equipamentos ou tecnologias específicas, mas a totalidade dos métodos racionalizados que buscam a eficiência máxima em qualquer domínio da ação humana; conceito central de La Technique ou l’enjeu du siècle (1954).
- Autonomia da técnica — a tese de que o sistema técnico moderno segue uma lógica própria de autoexpansão e autorregulação, independente dos valores morais, políticos ou religiosos que os seres humanos gostariam de lhe impor.
- Autoacréscimo e universalismo da técnica — a técnica se desenvolve por progressão automática (cada avanço técnico gera as condições para o seguinte) e tende a se universalizar, penetrando todas as culturas e esferas sociais.
- Propaganda como hipnose social — em Propagandes (1962), Ellul descreve a propaganda de massa não como mentira grosseira, mas como mecanismo sofisticado de adaptação psicológica que neutraliza o julgamento crítico do indivíduo moderno.
- Método dialético — Ellul insistia que sua sociologia da técnica (inspirada em Marx) e sua teologia (inspirada em Kierkegaard e Barth) formam dois polos de um único pensamento dialético: o diagnóstico sociológico sem esperança teológica seria niilista; a esperança teológica sem diagnóstico sociológico seria ingênua.
Influenciado por
- Karl Marx — método de crítica sociológica e histórica das estruturas de poder; segundo o próprio Ellul, ao lado de Kierkegaard, um dos dois únicos autores cuja obra completa ele leu, embora rejeitasse o determinismo econômico ortodoxo
- Søren Kierkegaard — fonte de sua antropologia da angústia e da paradoxalidade da fé
- Karl Barth — teologia dialética protestante, base da hermenêutica teológica de Ellul
- Lewis Mumford — Ellul discute e critica as teses de Technics and Civilization (traduzido ao francês em 1950) em La Technique ou l’enjeu du siècle
Influenciou
- Neil Postman — Technopoly (1992) e outras obras de Postman sobre a cultura tecnológica são explicitamente tributárias do conceito ellulliano de técnica autônoma
- A International Jacques Ellul Society (fundada em 2000) e a recepção acadêmica contínua de sua sociologia da técnica
- O debate contemporâneo sobre ética da tecnologia, ao lado de vozes como Ivan Illich e Marshall McLuhan, com os quais Ellul integra uma mesma geração crítica da sociedade tecnológica
- Recepção controversa: suas teses sobre a autonomia técnica foram citadas, de forma polêmica e sem qualquer endosso do autor, no manifesto de Theodore Kaczynski (1995) — episódio frequentemente discutido pelos comentadores de sua obra
Obras
La Technique ou l’enjeu du siècle (A Sociedade Técnica / The Technological Society, 1954); Propagandes (Propaganda, 1962); L’Illusion politique (A Ilusão Política, 1965); Le Système technicien (O Sistema Técnico, 1977).
Ver também
Lewis Mumford, Günther Anders, Filosofia da Técnica