
Hilary Whitehall Putnam foi um dos filósofos mais versáteis e intelectualmente honestos do século XX. Ao longo de uma carreira de seis décadas, na maior parte em Harvard, Putnam percorreu um itinerário filosófico incomum: defendeu posições que depois criticou com a mesma energia com que as havia estabelecido. Foi funcionalista e depois rejeitou o funcionalismo; foi realista científico e depois propôs o “realismo interno”; foi simpatizante do positivismo lógico e depois seu crítico. Esta disposição para a autocrítica é uma das marcas de seu estilo filosófico.
Conceitos-chave
Externalismo Semântico — “Os Significados Não Estão na Cabeça” (The Meaning of “Meaning”, em Language, Mind and Knowledge, Minnesota Studies in the Philosophy of Science, 1975): O experimento mental da Terra Gêmea é um dos mais famosos da filosofia analítica. Imagine um planeta quase idêntico à Terra onde existe uma substância chamada “água” pelos habitantes, indistinguível da nossa na aparência e no comportamento cotidiano, mas cuja fórmula química é XYZ, não H₂O. Em 1750, antes da química moderna, um habitante da Terra e seu sósia na Terra Gêmea teriam exatamente os mesmos estados mentais ao pensar em “água” — mas estariam referindo-se a substâncias distintas. Conclusão: o significado (extensão) de um termo natural não é determinado pelos estados mentais do falante, mas em parte pela estrutura real do ambiente. Daí a tese: “Cut the pie any way you like, meanings just ain’t in the head.” Esta posição, o externalismo semântico, foi desenvolvida em paralelo (e de modo independente) por Kripke para nomes próprios.
Funcionalismo (anos 1960): Em artigos como “Minds and Machines” (1960) e “Psychological Predicates” (1967, também publicado como “The Nature of Mental States”), Putnam propôs que os estados mentais são definidos por seus papéis funcionais — pelas relações causais que mantêm com inputs sensoriais, outputs comportamentais e outros estados mentais — não pela substância que os realiza. A dor, por exemplo, é o estado que é causado por dano tecidual e causa comportamentos de evitação. Esta posição implica a realizabilidade múltipla (multiple realizability): a mesma função mental pode ser realizada por substratos físicos diferentes (neurônios humanos, circuitos de silício). O funcionalismo, em grande parte por influência de Putnam, tornou-se a posição dominante na filosofia da mente a partir dos anos 1970.
Rejeição do Funcionalismo: Notavelmente, Putnam abandonou o funcionalismo que havia ajudado a fundar. Em Representation and Reality (1988), argumentou que o funcionalismo não consegue dar conta adequadamente dos qualia, da intencionalidade e do conteúdo semântico. O argumento da realizabilidade múltipla — que havia sustentado o funcionalismo — podia ser virado contra ele: se qualquer estrutura funcional pode ser mapeada sobre sistemas físicos arbitrários, então o funcionalismo não individualiza os estados mentais de modo satisfatório.
Argumento dos Cérebros em uma Cuba (Reason, Truth and History, 1981): Putnam usa o experimento mental dos cérebros em uma cuba — seres que não habitam corpos físicos mas recebem estímulos neurais gerados por computadores — para argumentar contra o ceticismo radical, não a favor dele. Se fôssemos cérebros em cubas, não poderíamos referir-nos à condição de “ser um cérebro em uma cuba” com as palavras habituais, pois nossa cadeia causal de referência não ligaria essas palavras ao conceito relevante. Portanto, quando um cético formula a hipótese, ele pressupõe um cenário que sua própria formulação refuta.
Realismo Interno: Em Reason, Truth and History (1981) e obras subsequentes, Putnam propõe o realismo interno (ou internal realism): rejeita o realismo metafísico (a ideia de que existe uma descrição verdadeira da realidade independente de qualquer esquema conceitual) sem cair no relativismo. A verdade é uma idealização: o que seria afirmado por uma teoria epistemicamente ideal. Esta posição intermediária foi criticada tanto por realistas quanto por anti-realistas.
Realismo Natural e Pragmatismo Tardio: Nas últimas décadas de sua vida, sob influência de William James, John Dewey e do segundo Wittgenstein, Putnam desenvolveu um “pragmatismo” que ele chamou em alguns contextos de realismo natural: a percepção é uma abertura direta ao mundo, não uma representação interna mediada. Em The Threefold Cord: Mind, Body, and World (1999), critica o “véu das ideias” que separa o sujeito do mundo externo.
Argumento da Indispensabilidade Quine-Putnam: Em filosofia da matemática, Putnam (em colaboração com Quine) defendeu que entidades matemáticas devem ser admitidas como existentes porque são indispensáveis às melhores teorias científicas. Se a física precisa de números reais, devemos reconhecer a existência de números reais.
Influenciado por
- Quine — naturalismo, holismo
- Carnap e o Positivismo Lógico (posição inicial, depois criticada)
- William James e Dewey — pragmatismo (influência crescente na fase madura)
- Wittgenstein tardio — jogos de linguagem, crítica ao representacionalismo
- Kripke — teoria causal da referência (interação e paralelismo)
Influenciou
- Jerry Fodor — linguagem do pensamento e realizabilidade múltipla
- Tyler Burge — externalismo social
- John McDowell — realismo direto e conteúdo perceptual
- Debates sobre funcionalismo e filosofia da mente
- Filosofia da matemática contemporânea
Obras
Philosophy of Logic (1971); Mathematics, Matter and Method (1975); Mind, Language and Reality (1975); Meaning and the Moral Sciences (1978); Reason, Truth and History (1981); Realism and Reason (1983); The Many Faces of Realism (1987); Representation and Reality (1988); Renewing Philosophy (1992); Words and Life (1994); The Threefold Cord (1999); Ethics without Ontology (2004); Jewish Philosophy as a Guide to Life (2008); Philosophy in an Age of Science (2012).
Ver também
Filosofia Analítica Filosofia da Mente Saul Kripke W.V.O. Quine
Livros indicados:
Reason, Truth and History — Hilary Putnam
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Mind, Language and Reality — Hilary Putnam
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