
Martin Heidegger nasceu em Meßkirch, no sul da Alemanha, em 1889, em família católica modesta, e chegou à filosofia pela teologia. Assistente e depois sucessor de Husserl em Freiburg, publicou em 1927 Ser e Tempo, obra que o consagrou como um dos filósofos mais influentes — e mais controversos — do século XX. A controvérsia é inseparável de sua biografia: em 1933 assumiu a reitoria de Freiburg e filiou-se ao partido nazista, comprometimento que nunca renegou publicamente e que os Cadernos Negros, publicados décadas depois, revelaram atravessado por antissemitismo. O peso moral e filosófico desse engajamento permanece um debate em aberto.
O projeto de Heidegger é radical: reabrir a questão do Ser (Seinsfrage), que segundo ele a metafísica ocidental teria esquecido desde Platão, confundindo o ser com os entes (a “diferença ontológica”). Para reconquistar a pergunta, parte do único ente que se interroga sobre o próprio ser: o ser humano, que ele renomeia Dasein (“ser-aí”). O Dasein não é um sujeito fechado diante de objetos, mas ser-no-mundo — já lançado num mundo de sentido, de relações e de cuidado (Sorge).
A existência autêntica nasce do confronto com a finitude: como ser-para-a-morte, o Dasein pode arrancar-se ao anonimato do “impessoal” (das Man), em que vivemos como “todo mundo vive”, e assumir sua existência como tarefa própria. Na obra tardia, após a chamada Kehre (viragem), Heidegger volta-se para a linguagem (“casa do ser”), a poesia e uma crítica penetrante da técnica moderna, que reduziria tudo — inclusive o homem — a mero “fundo de reserva” disponível para exploração. Sua influência foi imensa sobre o existencialismo de Sartre, a hermenêutica de Gadamer e o pós-estruturalismo de Foucault e Derrida.
Conceitos-chave
Ser e Tempo (1927)
- Dasein (ser-aí): modo de ser especificamente humano — não sujeito fechado, mas abertura ao ser
- Ser-no-mundo: o Dasein sempre já está no mundo — não sujeito que depois toca objetos
- Cuidado (Sorge): estrutura fundamental do Dasein; articula facticidade, projeto e queda
- Ser-para-a-morte: a morte é a possibilidade mais própria, certa, intransferível → angústia → autenticidade
- Autenticidade vs. Inautenticidade: o Man (o “se-diz”, o impessoal) nivela a existência; a angústia convoca para o si mesmo próprio
- Temporalidade: passado (facticidade) + futuro (projeto) + presente (queda)
Obra Tardia (após a Kehre)
- Esquecimento do Ser: a metafísica ocidental desde Platão esqueceu a diferença ontológica (ser vs. ente)
- Técnica moderna: reduz tudo a reserva (Bestand) disponível para exploração; o homem se torna recurso
- “A linguagem é a casa do ser” — arte e poesia como caminhos de abertura
Influenciado por
- Husserl (mestre; supera e transforma)
- Aristóteles — ousia, tempo
- Kierkegaard — existência individual, angústia
- Nietzsche — crítica da metafísica
Influenciou
- Sartre — existencialismo (via recepção de Ser e Tempo)
- Gadamer — hermenêutica filosófica
- Foucault — genealogia do poder-saber
- Derrida — desconstrução da presença
Obras
Ser e Tempo (1927); A Questão da Técnica (1954); A Origem da Obra de Arte (1935–36); Carta sobre o Humanismo (1946).
Ver também
Filosofia do Século XX
Livros indicados:
Uma história da filosofia - Vol. IV - do utilitarismo a Sartre
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Ser e tempo
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