
Harry Gordon Frankfurt (29 de maio de 1929, Langhorne, Pensilvânia — 16 de julho de 2023, Santa Mônica, Califórnia) foi um filósofo norte-americano, professor emérito da Universidade de Princeton, um dos nomes mais influentes da filosofia da ação e do livre-arbítrio no século XX. Começou como estudioso de Descartes (Demons, Dreamers, and Madmen, 1970) e construiu, a seguir, uma obra concisa e incisiva sobre a vontade, a pessoa e o amor — além de um pequeno ensaio que o tornaria, tardiamente, um autor de best-seller.
Conceitos-chave
- Os casos de Frankfurt (“Alternate Possibilities and Moral Responsibility”, 1969): contraexemplos engenhosos ao Princípio das Possibilidades Alternativas (PPA), segundo o qual só somos responsáveis por um ato se pudéssemos ter agido de outro modo. Frankfurt imagina um manipulador disposto a intervir caso o agente dê sinais de decidir diferente — mas que nunca precisa intervir, porque o agente faz por conta própria o que o manipulador queria. O agente é responsável, embora não pudesse ter agido de outro modo. O argumento reorientou o debate sobre o livre-arbítrio em favor do compatibilismo.
- A teoria hierárquica da vontade (“Freedom of the Will and the Concept of a Person”, 1971): distingue desejos de primeira ordem (querer fazer X) de desejos de segunda ordem (desejos sobre os próprios desejos). Uma volição de segunda ordem é querer que certo desejo seja a vontade que efetivamente nos move. Há liberdade da vontade quando aquilo que nos move coincide com o que queremos que nos mova — quando “queremos querer” o que queremos.
- O wanton: ser que tem desejos de primeira ordem mas nenhuma volição de segunda ordem — é indiferente a qual de seus impulsos vence. O wanton age, mas não é propriamente uma pessoa, pois não toma posição sobre a própria vontade. A pessoalidade nasce dessa capacidade reflexiva de identificar-se com os próprios desejos.
- Cuidado, amor e necessidade volitiva (A Importância Daquilo com que nos Importamos, 1988; As Razões do Amor, 2004): aquilo de que cuidamos e quem amamos fornecem as razões práticas mais fundamentais. Há “necessidades da vontade” — situações em que não podemos querer de outro modo e, ainda assim, somos plenamente livres, porque nossa vontade está inteira ali.
- Sobre Falar Merda (On Bullshit, ensaio de 1986, livro de 2005): o bullshitter difere do mentiroso. O mentiroso conhece a verdade e se importa com ela (para ocultá-la); o produtor de bullshit é indiferente a se o que diz é verdadeiro ou falso. Por isso, sustenta Frankfurt, o bullshit é inimigo maior da verdade do que a mentira.
Influenciado por
- Descartes — objeto de seus primeiros estudos sobre vontade e razão
- A tradição do debate sobre o livre-arbítrio (Hobbes, Hume, compatibilismo)
- Kant — a noção de autonomia, com a qual dialoga e diverge
Influenciou
- A filosofia contemporânea do livre-arbítrio e da responsabilidade moral (John Martin Fischer, Gary Watson)
- As teorias da autonomia pessoal e da identificação
- A filosofia da ação e do agente
- O debate público sobre verdade, mentira e desinformação
Obras
Demons, Dreamers, and Madmen (1970); The Importance of What We Care About (1988); Necessity, Volition, and Love (1999); Sobre Falar Merda (On Bullshit, 2005); As Razões do Amor (The Reasons of Love, 2004).
Ver também
Descartes, Kant, Peter Singer