Hans Jonas
Hans Jonas

Hans Jonas nasceu em Mönchengladbach, na Alemanha, em 10 de maio de 1903, e morreu em New Rochelle, estado de Nova York, em 5 de fevereiro de 1993. Estudou filosofia, teologia e história da arte em Freiburg, Berlim e Marburg, onde foi aluno de Martin Heidegger e de Rudolf Bultmann e doutorou-se em 1928 com uma tese sobre o conceito de gnose. Em Marburg iniciou uma longa amizade com Hannah Arendt. Judeu, deixou a Alemanha em 1933 após a ascensão do nazismo, passou pela Inglaterra e instalou-se na Palestina em 1934; durante a Segunda Guerra Mundial serviu na Brigada Judaica do exército britânico, e sua mãe foi assassinada em Auschwitz. Após a guerra lecionou em Israel, no Canadá e, a partir de 1955, na New School for Social Research, em Nova York, onde permaneceu até a aposentadoria, em 1976.

Sua obra tem três grandes momentos. O primeiro é histórico-religioso: Gnosis und spätantiker Geist (1934, 1954) e The Gnostic Religion (1958) interpretam o gnosticismo antigo à luz de categorias existenciais, e Jonas via nele um paralelo, ainda que controverso, com o niilismo moderno. O segundo é a filosofia da biologia, em The Phenomenon of Life (1966) e Organismus und Freiheit (1973): Jonas sustenta que o metabolismo, em que o organismo mantém a identidade ao trocar matéria com o meio, já exibe uma forma elementar de liberdade e de interioridade, e critica o dualismo cartesiano e o materialismo reducionista, que, a seu ver, acabam por compartilhar o mesmo pressuposto mecanicista. O terceiro é a ética, cujo marco é Das Prinzip Verantwortung (1979; O Princípio Responsabilidade, trad. inglesa The Imperative of Responsibility, 1984).

Nessa obra, Jonas argumenta que a tecnologia moderna ampliou de tal modo o alcance e a irreversibilidade do agir humano que as éticas tradicionais, centradas na relação entre indivíduos próximos e no presente imediato, tornaram-se insuficientes. Propõe então um novo imperativo, formulado em contraste com o imperativo categórico kantiano: agir de modo que os efeitos da ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida humana autêntica na Terra. Em 1987 recebeu o Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão.

Conceitos-chave

  • Princípio Responsabilidade — ética orientada para o futuro, que fundamenta o dever de preservar as condições de existência da humanidade e da natureza extra-humana diante do poder tecnológico.
  • Heurística do temor — método segundo o qual, diante de riscos de consequências irreversíveis, o prognóstico negativo deve ter precedência sobre o positivo; a incerteza justifica a cautela.
  • Imperativo da responsabilidade — reformulação do imperativo kantiano para um agir cujas consequências abrangem a continuidade da vida humana.
  • Metabolismo e liberdade orgânica — tese de que a vida orgânica manifesta uma liberdade primitiva, base de uma “biologia filosófica” que reintegra o espírito à natureza.
  • Gnose e niilismo — leitura do gnosticismo antigo como chave existencial para compreender o dualismo e a alienação do homem moderno.
  • Responsabilidade ontológica — fundamento do dever na afirmação de que o ser, e a vida em especial, tem valor intrínseco.
  • Conceito de Deus após Auschwitz — ensaio (publicado em inglês em 1987) em que Jonas propõe um Deus que se retira e deixa de ser onipotente, a fim de que o mundo exista.

Influenciado por

  • Martin Heidegger — fenomenologia existencial, método de análise do gnosticismo
  • Rudolf Bultmann — teologia e hermenêutica do Novo Testamento
  • Edmund Husserl — fenomenologia, ponto de partida de sua formação
  • Immanuel Kant — a forma do imperativo, que Jonas reelabora e critica
  • Tradição judaica — base de suas reflexões teológicas

Influenciou

  • A ética ambiental e a ética da tecnologia contemporâneas
  • A bioética, em debates sobre intervenções genéticas e responsabilidade com as gerações futuras
  • O debate sobre o princípio da precaução na política ambiental
  • A filosofia da biologia de inspiração fenomenológica

Obras

Gnosis und spätantiker Geist (1934, 1954); The Gnostic Religion (1958); The Phenomenon of Life (1966); Organismus und Freiheit (1973); Das Prinzip Verantwortung (1979); Technik, Medizin und Ethik (1985); Der Gottesbegriff nach Auschwitz (conferência de 1984, publicada em 1987).

Ver também

Martin Heidegger, Hannah Arendt, Immanuel Kant, Filosofia da Técnica, Ética Ambiental