
Gilbert Ryle nasceu em Brighton, Inglaterra, em 19 de agosto de 1900, e morreu em Whitby, North Yorkshire, em 6 de outubro de 1976. Estudou clássicos e depois filosofia no Queen’s College, Oxford, tornou-se tutor em Christ Church (onde atuou de 1925 a 1940) e, na Segunda Guerra Mundial, serviu nos Welsh Guards em trabalho de inteligência. Após a guerra, foi eleito Waynflete Professor of Metaphysical Philosophy em Oxford, cargo que ocupou até o fim de sua carreira acadêmica, e foi editor da revista Mind entre 1947 e 1971. Foi um dos principais nomes da chamada “filosofia da linguagem ordinária” de Oxford, embora preferisse descrever seu método como análise do “mapa lógico” dos conceitos, isto é, do modo como expressões de categorias diferentes se comportam logicamente.
Seu trabalho inicial inclui o artigo “Systematically Misleading Expressions” (1932), no qual sustenta que a forma gramatical das frases pode ocultar sua forma lógica, tema herdado de Bertrand Russell. Ryle também se interessou cedo pela fenomenologia e escreveu sobre Husserl e Heidegger, inclusive uma resenha de Ser e Tempo publicada na Mind em 1929. A obra pela qual é mais lembrado, The Concept of Mind (1949; O Conceito de Mente), aplica esse método ao problema mente-corpo. Nela, Ryle ataca o que chama de “mito de Descartes” e a “doutrina oficial” segundo a qual cada pessoa teria um corpo, sujeito a leis mecânicas, e uma mente, uma entidade privada e não espacial. Sua expressão mais célebre para essa doutrina é “o dogma do Fantasma na Máquina” (the dogma of the Ghost in the Machine), formulada no primeiro capítulo do livro.
Conceitos-chave
- Erro categorial — Ryle sustenta que o dualismo cartesiano trata a mente como se pertencesse à mesma categoria lógica que os corpos, apenas como uma segunda “coisa” de tipo especial. Ilustra o erro com exemplos como o do visitante que, após conhecer colégios, bibliotecas e departamentos, pergunta onde está “a universidade”, tratando-a como mais uma instituição ao lado das demais. Segundo Ryle, perguntar “onde está a mente além do comportamento?” cometeria erro análogo.
- Fantasma na máquina — nome dado por Ryle à imagem cartesiana de uma mente imaterial que dirige um corpo material. O termo é uma caracterização crítica, não uma expressão de Descartes.
- Saber-como e saber-que (knowing how e knowing that) — distinção apresentada no artigo “Knowing How and Knowing That” (conferência presidencial à Aristotelian Society, 1945–46) e desenvolvida em O Conceito de Mente. Saber-como é uma habilidade ou capacidade prática (andar de bicicleta, jogar xadrez), que Ryle considera irredutível ao saber-que, o conhecimento de proposições. Ele critica a “lenda intelectualista”, segundo a qual toda ação inteligente exigiria antes um ato mental de considerar proposições. A distinção foi retomada e contestada em debates posteriores, notadamente pelo intelectualismo de Jason Stanley e Timothy Williamson (2001).
- Disposições — para Ryle, muitos conceitos mentais (crença, inteligência, vontade) designam disposições e padrões de conduta, não episódios ocultos num teatro interior. Por isso sua posição é frequentemente chamada de behaviorismo lógico, rótulo que ele próprio recusava.
- Mapa lógico dos conceitos — a tarefa da filosofia seria esclarecer a “geografia lógica” dos conceitos e dissolver confusões geradas por abusos de categoria.
Influenciado por
- Bertrand Russell — a ideia de que a forma gramatical pode enganar sobre a forma lógica
- Ludwig Wittgenstein — a atenção ao uso das expressões e a concepção da filosofia como atividade de esclarecimento conceitual (influência discutida pelos comentadores)
- Edmund Husserl e Martin Heidegger — objetos de estudo e comentário de Ryle na juventude filosófica
- René Descartes — alvo principal da crítica em O Conceito de Mente
Influenciou
- Daniel Dennett — orientando de doutorado de Ryle em Oxford, que reconhece sua dívida em sua filosofia da mente
- A filosofia da mente funcionalista e disposicionalista do século XX, em debate com o dualismo e as teorias da identidade
- O debate epistemológico contemporâneo sobre saber-como (know-how) e habilidade
- Entre seus alunos em Oxford estiveram, por exemplo, A. J. Ayer, Bernard Williams e Peter Winch
Obras
The Concept of Mind (1949, O Conceito de Mente); Dilemmas (1954); Plato’s Progress (1966); Collected Papers (1971); On Thinking (1979, póstuma).
Ver também
Descartes, Wittgenstein, Russell, J.L. Austin, Daniel Dennett, Husserl, Heidegger, David Lewis