Gayatri Spivak
Gayatri Spivak

Gayatri Chakravorty Spivak (n. 1942, Calcutá) é uma teórica indiana e professora de literatura comparada na Universidade Columbia. Sua tradução para o inglês de De la grammatologie (1976) tornou Derrida acessível ao mundo anglófono e marcou o início de uma das obras mais influentes — e dificultosamente sintética — da teoria contemporânea. Spivak combina desconstrução, marxismo, feminismo e crítica pós-colonial. Foi associada ao Subaltern Studies Group, coletivo de historiadores sul-asiáticos que, a partir de Gramsci e de Ranajit Guha, propunha reescrever a história colonial e nacional a partir das classes subalternas. Seu ensaio “Can the Subaltern Speak?” (1988; Pode o subalterno falar?) tornou-se referência canônica do campo. Em obras posteriores, Spivak ampliou sua reflexão para a globalização, a pedagogia e a literatura-mundo.

Conceitos-chave

  • Subalterno (a partir de Gramsci e do Subaltern Studies Group; “Can the Subaltern Speak?”, 1988): figura cuja voz e cujo testemunho são estruturalmente apagados nos arquivos da história hegemônica; não significa “qualquer dominado”, mas aquele cuja inteligibilidade é bloqueada pelos próprios códigos da representação colonial e nacional.
  • A questão “pode o subalterno falar?” (“Can the Subaltern Speak?”, 1988): exemplificada pela análise da prática do sati (autoimolação de viúvas) na Índia colonial — sobre a mulher subalterna pesam duas representações concorrentes (o discurso colonial britânico e o discurso patriarcal indiano), e nenhuma das duas a deixa falar; o “não” provocador da resposta de Spivak é menos uma negação ontológica do que um diagnóstico sobre as condições da escuta.
  • Violência epistêmica (“Can the Subaltern Speak?”, 1988): o gesto pelo qual o saber colonial constitui seu objeto destruindo os modos pelos quais esse objeto se compreendia.
  • Essencialismo estratégico (entrevistas dos anos 1980): uso provisório e politicamente situado de categorias identitárias, com plena consciência crítica de sua construção; Spivak distanciou-se do termo após sua popularização.
  • Tradução como tarefa ética (The Politics of Translation, 1992; Death of a Discipline, 2003): a tradução literária não é veículo neutro, mas exercício de hospitalidade rigorosa entre línguas e literaturas, capaz de descolonizar o cânone comparatista.
  • Educação estética na globalização (An Aesthetic Education in the Era of Globalization, 2012): retomada crítica de Schiller para sustentar que uma educação estética é condição para a formação de cidadãos capazes de resistir à abstração financeira do mundo.

Influenciado por

  • Derrida — desconstrução, traço e différance
  • Marx — crítica da economia política
  • Foucault — análise discursiva (em diálogo crítico)
  • Ranajit Guha — historiografia subalterna
  • Mahasweta Devi — ficção bengali, que Spivak traduziu

Influenciou

  • Edward Said — diálogo recíproco em estudos pós-coloniais
  • Judith Butler — performatividade e crítica feminista
  • Homi Bhabha — terceiro espaço e crítica colonial
  • Achille Mbembe — pensamento descolonial
  • Estudos subalternos latino-americanos

Obras

A tradução de Derrida, Of Grammatology (1976), com longa introdução crítica, é em si um marco. O ensaio “Can the Subaltern Speak?” foi publicado em 1988 (em Marxism and the Interpretation of Culture). In Other Worlds (1987) reúne ensaios sobre literatura e política. A Critique of Postcolonial Reason: Toward a History of the Vanishing Present (1999) é sua obra teórica mais ambiciosa. Death of a Discipline (2003) propõe uma nova literatura comparada planetária. An Aesthetic Education in the Era of Globalization (2012) e Other Asias (2008) prolongam essa reflexão.

Ver também

Derrida, Edward Said, Judith Butler