Gaston Bachelard
Gaston Bachelard

Gaston Bachelard nasceu em Bar-sur-Aube, na França, em 27 de junho de 1884, e morreu em Paris em 16 de outubro de 1962. De origem modesta, trabalhou nos correios antes de se dedicar aos estudos de ciências e, depois, de filosofia. Lecionou física e química no colégio de Bar-sur-Aube a partir de 1919, doutorou-se em 1927 e foi professor na Universidade de Dijon de 1930 a 1940. Nesse ano assumiu, na Sorbonne, a cátedra de história e filosofia das ciências, que ocupou até 1954, sucedendo Abel Rey. Georges Canguilhem foi seu discípulo e seu sucessor na Sorbonne.

Sua obra tem duas vertentes que ele próprio distinguia: uma “diurna”, dedicada à epistemologia e à história das ciências físicas e químicas, e uma “noturna”, dedicada à imaginação poética. Na primeira, destacam-se Le Nouvel esprit scientifique (1934), La Formation de l’esprit scientifique (1938), La Philosophie du non (1940) e Le Rationalisme appliqué (1949). Na segunda, La Psychanalyse du feu (1938), a série sobre os quatro elementos (L’Eau et les rêves, 1942; L’Air et les songes, 1943; La Terre et les rêveries de la volonté e La Terre et les rêveries du repos, 1948), La Poétique de l’espace (1957) e La Poétique de la rêverie (1960). Bachelard sustentava que as duas vertentes não se misturam: a ciência exige disciplina racional e vigilância contra a imaginação, enquanto a poesia exige entrega à imagem.

Conceitos-chave

  • Obstáculo epistemológico — em A Formação do Espírito Científico (1938), Bachelard sustenta que o conhecimento científico se constitui contra o conhecimento anterior, e que o próprio espírito cria entraves ao progresso. Entre os obstáculos que analisa estão a experiência primeira (a observação imediata e encantada), o conhecimento geral, o obstáculo verbal, o substancialista e o animista. A tarefa seria uma “psicanálise” do conhecimento objetivo, que o purifique dessas imagens.
  • Ruptura epistemológica — a ciência não prolonga o senso comum por continuidade, mas rompe com ele e com suas representações espontâneas; também há rupturas internas à história das ciências, como as que ocorreram com as geometrias não euclidianas e a relatividade. O conceito foi retomado depois por Louis Althusser e por outros autores da tradição estruturalista francesa.
  • Novo espírito científico e filosofia do não — a ciência contemporânea (física relativista, mecânica quântica) obriga a retificar conceitos anteriores; o racionalismo torna-se aberto e “aplicado”, e Bachelard propõe uma epistemologia “não cartesiana”, que recusa as ideias simples e imutáveis.
  • Fenomenotécnica — a ideia de que os fenômenos científicos são, em grande parte, produzidos e construídos por instrumentos e teorias, e não simplesmente dados.
  • História recorrente — o historiador das ciências julga o passado à luz da ciência atual, que determina o que, no passado, foi erro ou progresso.
  • Imaginação material e devaneio — na vertente poética, a imaginação é associada aos elementos (fogo, água, ar, terra) e à matéria; o devaneio poético é uma atividade própria, distinta do sonho.
  • Topoanálise — em A Poética do Espaço (1957), Bachelard estuda por meio de imagens poéticas (a casa, o ninho, a concha, os cantos) os espaços da intimidade, em abordagem de inspiração fenomenológica.

Influenciado por

  • Léon Brunschvicg e Abel Rey — seus orientadores de doutorado e interlocutores na filosofia das ciências francesa
  • A física do século XX (relatividade, mecânica quântica) e as geometrias não euclidianas, base de seu “novo espírito científico”
  • Henri Bergson — interlocutor crítico, a quem responde em A Dialética da Duração (1936)
  • A psicanálise de Freud e a psicologia de Jung — referências, críticas ou apropriadas, em seus estudos sobre a imaginação
  • A fenomenologia — inspiração declarada para o método de A Poética do Espaço

Influenciou

  • Georges Canguilhem — discípulo e sucessor, continuador da epistemologia histórica
  • Louis Althusser — apropriação do conceito de ruptura epistemológica
  • Michel Foucault — a historiografia epistemológica de Bachelard e Canguilhem figura entre as fontes da arqueologia foucaultiana do saber
  • Thomas Kuhn — comparado com frequência a Bachelard, pela descontinuidade no desenvolvimento científico, embora a influência direta não seja estabelecida
  • Os estudos de imaginário, de poética e de crítica literária (por exemplo, Gilbert Durand)

Obras

Essai sur la connaissance approchée (1928); Le Nouvel esprit scientifique (1934); La Formation de l’esprit scientifique (1938); La Psychanalyse du feu (1938); La Philosophie du non (1940); L’Eau et les rêves (1942); Le Rationalisme appliqué (1949); La Poétique de l’espace (1957); La Poétique de la rêverie (1960).

Ver também

Thomas Kuhn, Karl Popper, Bergson, Husserl, Louis Althusser, Foucault