Hans-Georg Gadamer
Hans-Georg Gadamer

Filósofo alemão; principal representante da hermenêutica filosófica do séc. XX. Discípulo de Heidegger; sua obra Verdade e Método (1960) reformulou o problema da compreensão como questão filosófica fundamental.

Formado em Marburgo no clima do neokantismo, Gadamer encontrou em Heidegger a virada decisiva de sua trajetória: a analítica da existência mostrava que compreender não é uma operação intelectual entre outras, mas o próprio modo de ser do homem no mundo. Seus primeiros trabalhos voltaram-se sobretudo ao diálogo platônico e à ética dialética de Platão, e foi apenas na maturidade — quando já ocupava a cátedra de Heidelberg — que publicou a obra que o consagraria, escrita já aos sessenta anos. Atravessando os anos do nazismo sem se filiar ao Partido — ainda que, como muitos acadêmicos, tenha assinado em 1933 o juramento de fidelidade dos professores ao novo regime — e sobrevivendo a duas guerras, Gadamer só alcançaria reconhecimento internacional na segunda metade do século, tornando-se uma das vozes filosóficas mais longevas e respeitadas da Europa.

O alvo central de Verdade e Método é a pretensão do método científico de monopolizar o acesso à verdade. Contra essa redução, Gadamer recupera a experiência da verdade que se dá na arte, na história e na linguagem — domínios em que o sentido não é “produzido” por um sujeito neutro, mas advém de nossa pertença a uma tradição que nos precede e nos constitui. Compreender, nessa perspectiva, é sempre interpretar a partir de uma situação histórica concreta, num movimento em que intérprete e coisa interpretada se implicam mutuamente. Essa tese deslocou a hermenêutica de uma simples técnica de leitura de textos para uma reflexão sobre a finitude e a historicidade de toda compreensão humana, com efeitos duradouros sobre a filosofia, a teoria da interpretação, o direito e as ciências humanas.

Conceitos-chave

  • Hermenêutica filosófica: a compreensão não é um método científico — é o modo de ser do Dasein histórico; não algo que fazemos, mas algo que nos acontece
  • Círculo hermenêutico: compreender um texto exige pré-compreensão (do todo), que é revista pelas partes, que são iluminadas pelo todo revisto — espiral ascendente, não círculo vicioso
  • Preconceito (Vorurteil): reabilita os preconceitos (pré-julgamentos) como condição de toda compreensão — não são obstáculos a superar, mas estruturas de abertura ao mundo; a Aufklärung errou ao denunciar todo preconceito
  • Tradição e autoridade: a tradição transmite verdades sedimentadas que a razão crítica não pode simplesmente descartar — ela é condição de nossa situação hermenêutica
  • Fusão de horizontes (Horizontverschmelzung): ao compreender um texto do passado, o horizonte do intérprete e o do texto se fundem; não há acesso “puro” ao sentido original (contra o historicismo de Dilthey)
  • Linguagem como medium universal: “O ser que pode ser compreendido é linguagem”; toda experiência humana é mediada pela linguagem — a hermenêutica é a dimensão universal da filosofia
  • Diálogo: a conversa autêntica é modelo da compreensão — o parceiro nos diz algo que não sabíamos; a pergunta abre o horizonte

Influenciado por

  • Heidegger — ser-no-mundo, historicidade, linguagem
  • Hegel — dialética e mediação histórica
  • Platão — diálogo socrático como modelo
  • Friedrich Schleiermacher — hermenêutica romântica (ponto de partida crítico)
  • Wilhelm Dilthey — hermenêutica das ciências humanas (supera)

Influenciou

  • Paul Ricoeur — hermenêutica do texto e da narrativa
  • Habermas — debate famoso sobre tradição vs. crítica (Gadamer-Habermas)
  • Teoria literária (recepção: Jauss, Iser)
  • Filosofia do direito e bioética

Obras

Verdade e Método (1960); A Razão na Época da Ciência (1976); O Elogio da Teoria (1983); A Herança da Europa (1989).

Ver também

Filosofia do Século XX

Livros indicados:

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