Friedrich Schleiermacher
Friedrich Schleiermacher

Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher nasceu em Breslau (atual Wrocław, Polônia) em 21 de novembro de 1768 e faleceu em Berlim em 12 de fevereiro de 1834. Filho de um capelão reformado, estudou no seminário morávia de Barby e depois em Halle. Tornou-se pregador em Berlim, professor em Halle (1804–1807) e, a partir de 1810, professor de teologia e filosofia na recém-fundada Universidade de Berlim — da qual foi um dos principais articuladores intelectuais, ao lado de Wilhelm von Humboldt e Fichte.

Schleiermacher ocupa um lugar duplo na história da filosofia: como teólogo, reformulou a compreensão do fenômeno religioso dentro do Romantismo alemão; como filósofo da linguagem e da interpretação, fundou a hermenêutica geral — a teoria filosófica da compreensão como tal, para além das aplicações especializadas à exegese bíblica ou ao direito.

Conceitos-chave

  • Hermenêutica geral: Antes de Schleiermacher, a hermenêutica era uma disciplina auxiliar fragmentada — havia hermenêutica bíblica (teológica) e hermenêutica jurídica, cada uma com seus cânones particulares. Schleiermacher propõe, a partir de suas preleções (especialmente após 1819), uma teoria geral da compreensão aplicável a qualquer texto e a qualquer discurso. A incompreensão — e não a compreensão — é o estado natural; o intérprete deve reconstruir ativamente o sentido. Essa reformulação tornou a hermenêutica uma disciplina filosófica de primeira ordem.

  • Interpretação gramatical e interpretação psicológica (técnica): A compreensão plena de um texto requer dois movimentos complementares. A interpretação gramatical (objetiva) examina o texto à luz da linguagem compartilhada de sua época — o léxico, a gramática, o uso convencional. A interpretação psicológica (ou técnica, subjetiva) busca reconstruir o processo criativo individual do autor — o que Schleiermacher chama de “divinação” (Divination): uma intuição que vai além das regras, capturando o estilo e a intenção singular do escritor.

  • Círculo hermenêutico: A parte só é compreendida à luz do todo; o todo só é compreendido pela composição das partes. Este princípio, já presente em hermeneutas anteriores (Ast, Wolf), é sistematizado por Schleiermacher: aplica-se tanto no plano gramatical (frase / obra) quanto no plano psicológico (pensamento individual / contexto de vida do autor). O círculo não é vicioso — é a estrutura da própria compreensão.

  • Divinação (Divination): O momento não-algorítmico da interpretação — a capacidade intuitiva do intérprete de se transportar para o horizonte mental do autor, identificando o que é singular e não redutível a regras. Schleiermacher a distingue da interpretação comparativa (que aplica regras gerais): a divinação é indispensável para textos singulares e para autores de estilo marcante.

  • Religião como sentimento de dependência absoluta (schlechthinniges Abhängigkeitsgefühl): Na teologia, Schleiermacher situa o fenômeno religioso não na especulação metafísica nem na moralidade prática, mas no domínio do sentimento — especificamente, no sentimento de dependência absoluta em relação ao infinito. Esta formulação, desenvolvida nos Discursos sobre a Religião (1799) e sistematizada na Glaubenslehre (Doutrina da Fé, 1821–1822), representou uma resposta ao desafio iluminista: a religião é irredutível à razão teórica ou à ética, porque tem sua própria forma de experiência.

  • Tradução e interpretação de Platão: Schleiermacher produziu a primeira tradução sistemática dos diálogos de Platão para o alemão (6 vols., 1804–1828), acompanhada de introduções que permanecem influentes. Seu princípio de tradução filosófica — respeitar a língua de chegada sem trair o espírito do original — e sua leitura da ordem dos diálogos platonicos influenciaram profundamente a hermenêutica platônica.

  • Ética e dialética: Além da hermenêutica e da teologia, Schleiermacher desenvolveu uma ética baseada na formação (Bildung) individual dentro da comunidade, e uma dialética (teoria do conhecimento e do discurso) que relaciona pensamento, linguagem e ser — antecipando temas que Gadamer e a filosofia analítica da linguagem explorariam.

Influenciado por

  • Romanticismo alemão (Novalis, Friedrich Schlegel — amizade direta em Berlim, c. 1797–1800) — valorização do individual, do histórico, da expressão
  • Kant — distinção de domínios (razão teórica, prática, estética/sentimento); crítica do dogmatismo
  • Spinoza — panteísmo e sentimento do infinito (mediado pelo círculo de Berlim)
  • Platão — como intérprete e tradutor, diálogo como forma filosófica exemplar
  • Friedrich Ast e F.A. Wolf — hermenêutica clássica e filologia, ponto de partida crítico

Influenciou

  • Wilhelm Dilthey — hermenêutica das ciências humanas; Verstehen como método
  • Hans-Georg GadamerVerdade e Método (1960) parte de uma crítica produtiva a Schleiermacher: aceita o círculo hermenêutico, rejeita o psicologismo da divinação
  • Paul Ricoeur — integra Schleiermacher na genealogia da hermenêutica
  • Teologia liberal do séc. XIX–XX (Adolf von Harnack, Ernst Troeltsch) — método histórico-crítico na teologia
  • Estudos de tradução (Übersetzungstheorie) — seu ensaio Über die verschiedenen Methoden des Übersetzens (Sobre os diferentes métodos de traduzir, 1813) é texto fundacional do campo

Obras

Über die Religion: Reden an die Gebildeten unter ihren Verächtern (Sobre a Religião: Discursos a seus Desprezadores Cultos, 1799; 2.ª ed. rev. 1806); Monologen (1800); tradução alemã dos diálogos de Platão (6 vols., 1804–1828); Über die verschiedenen Methoden des Übersetzens (1813); Der christliche Glaube (Glaubenslehre, 1821–1822; 2.ª ed. rev. 1830); Hermeneutik und Kritik (publicação póstuma, 1838, a partir de manuscritos e anotações de aulas).

Ver também

Filosofia do Século XIX; Dilthey; Gadamer; Ricoeur; Romanticismo Alemão

Livros indicados:

Capa do livro Hermeneutics and Criticism — Friedrich Schleiermacher (trad. Andrew Bowie, Cambridge UP) Hermeneutics and Criticism — Friedrich Schleiermacher (trad. Andrew Bowie, Cambridge UP) Ver na Amazon →