
Matemático alemão nascido em 1848, Gottlob Frege passou quase toda a carreira como professor em Jena, em relativa obscuridade — seu gênio só seria plenamente reconhecido após a morte, em 1925, sobretudo graças a Russell, Wittgenstein e ao Círculo de Viena. Hoje é considerado o fundador da lógica moderna e um dos pais da filosofia analítica.
Sua primeira grande realização foi a criação, no Begriffsschrift (1879), de uma lógica de predicados que aposentou a velha silogística aristotélica: com quantificadores (“para todo”, “existe”), variáveis e funções, Frege deu à lógica a precisão e o poder expressivo de que ela precisava para analisar a matemática. Seu objetivo maior era o logicismo — demonstrar que a aritmética se reduz à lógica pura. O projeto, exposto nas Leis Básicas da Aritmética, foi atingido em cheio por uma carta de Russell (1902), que revelou uma contradição no sistema; Frege jamais se recuperou inteiramente do golpe.
Sua contribuição mais célebre à filosofia da linguagem é a distinção entre sentido (Sinn) e referência (Bedeutung). “A estrela da manhã” e “a estrela da tarde” têm a mesma referência — o planeta Vênus —, mas sentidos diferentes, pois apresentam o objeto de modos distintos. Essa distinção, somada à tese de que os pensamentos são entidades objetivas (e não estados psicológicos privados), tornou-se a base de toda a semântica e filosofia da linguagem do século XX, influenciando de Russell e Wittgenstein a Carnap, Quine e Dummett.
Conceitos-chave
- Lógica de predicados (Begriffsschrift, 1879): criou a notação lógica que substitui a silogística aristotélica — quantificadores (∀, ∃), variáveis, funções e argumentos. Fundamento técnico da lógica matemática moderna
- Logicismo: a aritmética é redutível à lógica pura — os números são objetos lógicos (extensões de conceitos). Tentativa exposta em Grundgesetze; o paradoxo de Russell mostrou uma inconsistência no sistema
- Sentido (Sinn) e referência (Bedeutung): “A estrela da manhã = a estrela da tarde” — ambas referem o mesmo objeto (Vênus) mas têm sentidos diferentes. Distinção fundamental: a referência é o objeto; o sentido é o modo de apresentação do objeto
- Pensamentos como objetos abstratos: os pensamentos (proposições) não são eventos mentais nem objetos físicos — pertencem a um “terceiro reino”, objetivo e não-psíquico; diferentes pessoas podem apreender o mesmo pensamento
- Contexto: o significado de uma palavra só se determina no contexto de uma proposição — princípio do contexto (Grundlagen)
Influenciado por
- Kant — fundamentos da aritmética (ponto de partida)
- Leibniz — ideal de uma characteristica universalis (linguagem lógica universal)
- Boole — álgebra lógica (supera)
Influenciou
- Russell — adaptou a lógica de Frege; o paradoxo de Russell afetou o logicismo de Frege
- Wittgenstein — Tractatus usa a semântica de Frege
- Círculo de Viena — positivismo lógico
- Michael Dummett, Quine — filosofia analítica contemporânea
Obras
Begriffsschrift (1879); Os Fundamentos da Aritmética (1884); Sobre Sentido e Referência (1892); As Leis Básicas da Aritmética (1893–1903).
Ver também
Filosofia do Século XX
Livros indicados:
Uma história da filosofia - Vol. IV - do utilitarismo a Sartre
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