Franz Brentano
Franz Brentano

Franz Brentano (1838–1917) foi um filósofo austríaco-alemão cuja obra constitui um dos pontos de inflexão silenciosos da filosofia moderna. Nascido em Marienberg am Rhein, em uma família católica de origem italiana — era sobrinho do poeta romântico Clemens Brentano —, doutorou-se em 1862 em Tübingen com a tese Von der mannigfachen Bedeutung des Seienden nach Aristoteles (“Dos múltiplos sentidos do ente em Aristóteles”), trabalho que, lido na adolescência por Martin Heidegger, marcaria toda uma linhagem de retorno a Aristóteles no século XX. Ordenado sacerdote católico em 1864, habilitou-se em Würzburg em 1866 e renunciou ao sacerdócio em 1873, em meio à crise aberta pelo dogma da infalibilidade papal (Vaticano I, 1870). Em Viena, onde lecionou de 1874 a 1895, formou uma constelação de discípulos — Husserl, Meinong, Twardowski, Stumpf, Ehrenfels, Marty — que dariam origem à fenomenologia, à teoria do objeto e à Escola de Lvov-Varsóvia. Perdeu a cátedra em 1880 por casar-se (a lei austríaca tratava ex-padres como ainda vinculados ao celibato) e foi reduzido a Privatdozent. Aposentado em 1895, viveu em Florença e depois em Zurique, onde morreu cego em 1917.

Conceitos-chave

  • Intencionalidade (Psychologie vom empirischen Standpunkt, 1874): todo fenômeno psíquico se caracteriza por dirigir-se a um objeto — uma “in-existência intencional” (intentionale Inexistenz) de um conteúdo, expressão que Brentano recupera dos escolásticos medievais. Esse traço, ausente nos fenômenos físicos, tornou-se o critério clássico para distinguir o mental do não-mental.
  • Classificação dos fenômenos psíquicos (Psychologie, 1874): contra a tripartição tradicional (representar, pensar, querer), Brentano organiza a vida mental em três classes fundamentais — representações (Vorstellungen), juízos (afirmar ou negar a existência do representado) e fenômenos do amor e do ódio (afetos, emoções e atos da vontade tomados como uma única classe de tomadas-de-posição valorativas).
  • Múltiplos sentidos do ente em Aristóteles (tese de 1862): Brentano organiza o “pollachôs legetai to on” aristotélico em uma arquitetura sistemática — ente como categorias, como ato e potência, como verdadeiro, como acidental — que abriu o caminho para a leitura ontológica de Heidegger.
  • Ética do conhecimento moral correto (Vom Ursprung sittlicher Erkenntnis, 1889): há atos de amor e ódio “evidentemente corretos” análogos aos juízos evidentemente verdadeiros; o bem é o objeto de uma preferência cuja correção pode ser intuída diretamente, ancorando a ética em uma experiência axiológica e não em utilidade ou imperativos.
  • Psicologia descritiva versus genética: a filosofia da mente deve começar por descrever rigorosamente os tipos e estruturas dos atos psíquicos antes de buscar suas causas — programa que Husserl traduzirá em fenomenologia descritiva.
  • Reísmo da última fase (manuscritos tardios, c. 1904–1917): Brentano abandona a admissão de entidades não-reais (proposições, estados de coisas, objetos inexistentes) e sustenta que só existem coisas (res) individuais; a intencionalidade passa a ser concebida como uma relação peculiar do sujeito a coisas, não a “conteúdos”.

Influenciado por

  • Aristóteles — doutrina da alma, dos atos psíquicos e dos sentidos do ente
  • Tomás de Aquino e a escolástica — noção medieval de esse intentionale do objeto na mente
  • Filosofia britânica — J. S. Mill (com quem trocou correspondência) e a tradição empirista, modelo de “ponto de vista empírico”
  • Leibniz e Descartes — primazia da consciência e do método introspectivo descritivo

Influenciou

  • Husserl — aluno em Viena entre 1884 e 1886; a fenomenologia herda dele a intencionalidade e a psicologia descritiva
  • Alexius Meinong — teoria do objeto, objetos inexistentes
  • Kazimierz Twardowski — fundador da Escola de Lvov-Varsóvia, matriz da lógica polonesa
  • Carl Stumpf e Christian von Ehrenfels — psicologia da forma (proto-gestaltismo)
  • Anton Marty — filosofia da linguagem brentaniana
  • Sigmund Freud — assistiu a seus cursos em Viena (1874–76), antes de optar pela medicina
  • Roderick Chisholm — reintroduziu a “tese de Brentano” na filosofia analítica da mente (anos 1950)

Obras

A produção de Brentano publicada em vida é menor do que a circulada em manuscritos, cadernos e cursos. Os marcos impressos são a tese de 1862, Von der mannigfachen Bedeutung des Seienden nach Aristoteles; Die Psychologie des Aristoteles (1867); e sobretudo a Psychologie vom empirischen Standpunkt (1874; segunda edição revista, póstuma, em 1924), sua obra magna e ponto de partida da filosofia da mente do século XX. Vom Ursprung sittlicher Erkenntnis (1889; Da Origem do Conhecimento Moral) condensa sua ética. Kategorienlehre (1933) e Wahrheit und Evidenz (1930), póstumos, foram organizados por discípulos a partir de manuscritos; a edição crítica de seu Nachlass ainda está em curso, o que faz da própria obra de Brentano um campo vivo de pesquisa.

Ver também

Husserl, Aristóteles, Heidegger