Francis Fukuyama
Francis Fukuyama

Francis Yoshihiro Fukuyama (1952–) nasceu em Chicago, filho de um pastor protestante nipo-americano de segunda geração, doutor em sociologia, e de uma nascida em Kyoto, filha do economista Shiro Kawata, fundador do Departamento de Economia da Universidade de Kyoto. Formou-se em estudos clássicos pela Universidade Cornell — onde foi aluno de Allan Bloom — e doutorou-se em ciência política pela Universidade Harvard. Trabalhava no corpo de planejamento político (Policy Planning Staff) do Departamento de Estado dos Estados Unidos quando publicou, no verão de 1989, meses antes da queda do Muro de Berlim, o ensaio que o tornaria mundialmente conhecido: “The End of History?”, na revista The National Interest. Ampliado em livro como O Fim da História e o Último Homem (1992), o argumento provocou um dos debates intelectuais mais intensos do fim do século XX.

A tese de Fukuyama, explicitamente devedora da leitura hegeliana feita por Alexandre Kojève em seus seminários parisienses sobre a Fenomenologia do Espírito, não afirma o fim dos acontecimentos históricos — guerras, crises e catástrofes continuariam a ocorrer —, mas o fim da história entendida como evolução ideológica da humanidade: com o colapso do fascismo e, depois, do comunismo soviético, a democracia liberal de mercado teria se consolidado como o único sistema de organização político-econômica capaz de satisfazer tanto o desejo material quanto a demanda de reconhecimento que move os seres humanos, sem que houvesse, à vista, nenhuma alternativa ideológica coerente e viável para disputá-la. Fukuyama retoma de Kojève a ideia de que a história, no sentido hegeliano de confronto entre princípios universais rivais, teria alcançado seu ponto terminal com a universalização do reconhecimento recíproco garantido pelo Estado liberal — embora eventos históricos particulares, é claro, continuassem a acontecer indefinidamente.

Nas décadas seguintes, Fukuyama revisitou e complexificou sua tese original, sobretudo em obras como Confiança (1995), As Origens da Ordem Política (2011) e Ordem Política e Decadência Política (2014), reconhecendo riscos de estagnação institucional, populismo e fragilidade das democracias liberais, sem no entanto abandonar a estrutura teleológica fundamental de seu argumento inicial.

Conceitos-chave

  • Fim da história: não o fim dos eventos ou da mudança empírica, mas o esgotamento da evolução ideológica da humanidade — a democracia liberal de mercado como ponto terminal do desenvolvimento das formas de governo, por não haver alternativa sistêmica coerente capaz de superá-la dialeticamente.
  • Thymos (timo): retomando a tripartição platônica da alma, Fukuyama recorre ao conceito de thymos — a parte da alma responsável pelo desejo de reconhecimento e dignidade — para explicar a força motriz por trás da luta histórica por reconhecimento e, depois, os riscos que o thymos insatisfeito representa para a estabilidade das democracias liberais.
  • O último homem (last man): figura tomada de Nietzsche para designar o cidadão da democracia liberal plenamente satisfeita — confortável, sem grandes causas, sem risco existencial — e a inquietação de que essa satisfação material gere tédio, ressentimento e demanda irracional por reconhecimento (megalothymia).
  • Leitura kojèviana de Hegel: a tese de Fukuyama depende da interpretação de Alexandre Kojève da dialética do senhor e do escravo na Fenomenologia do Espírito como motor de toda a história humana — a luta por reconhecimento recíproco entre consciências.
  • Confiança e capital social: em obras posteriores, Fukuyama desloca o foco para as condições institucionais e culturais — confiança interpessoal, Estado de direito, capacidade estatal — que sustentam ou ameaçam a democracia liberal, sem abandonar a estrutura teleológica de sua tese original.

Influenciado por

  • Hegel — via leitura kojèviana, a dialética do reconhecimento como motor da história universal
  • Kojève — os seminários parisienses sobre a Fenomenologia do Espírito, que forneceram a Fukuyama seu quadro teórico central
  • Nietzsche — a figura do “último homem” e a crítica à complacência niilista da modernidade
  • Platão — a tripartição da alma e o conceito de thymos como parte irredutível da motivação humana
  • Samuel Huntington — orientador de Fukuyama em Harvard, cuja ênfase na instituição política serviu de referência crítica

Influenciou

  • O debate público pós-Guerra Fria sobre a universalidade da democracia liberal e o “fim das ideologias”
  • A ciência política comparada contemporânea, sobretudo estudos sobre construção estatal (state-building) e ordem política
  • O diálogo crítico com a tese do “choque de civilizações” de Samuel Huntington, que disputou publicamente a universalidade do modelo liberal fukuyamiano
  • Debates contemporâneos sobre populismo, identidade e reconhecimento, retomados pelo próprio Fukuyama em Identidade (2018)

Obras

“The End of History?” (The National Interest, verão de 1989); O Fim da História e o Último Homem [The End of History and the Last Man] (1992); Confiança: as Virtudes Sociais e a Criação da Prosperidade [Trust] (1995); A Grande Ruptura [The Great Disruption] (1999); As Origens da Ordem Política [The Origins of Political Order] (2011); Ordem Política e Decadência Política [Political Order and Political Decay] (2014); Identidade [Identity] (2018).

Ver também

Hegel, Nietzsche, Arnold Toynbee, Oswald Spengler

Livros indicados: